Amizade descartável entre homens negros

Homens recuperam amizades com outros homens depois de um conflito? Na minha percepção (que é cruzada por vários pontos que me formam e informam aos demais), amizades masculinas quando trincadas, são vistas como vidro espatifado. A rigidez dos códigos masculinos e uma certa inabilidade de mostrar a importância da presença do outro na vida (quando tal presença é benéfica) faz com que amizades longas sejam perdidas por conflitos que, pela amizade, se deveria mediar.

Homens se descartam, apesar dos afetos sentidos. Pontes que já eram frágeis para diálogos francos sobre pontos sensíveis(pois quase inexistentes) são implodidos para absolutamente nada ser colocado no lugar. Apenas a observação do que existia ali, com vários receios de reconstruções. Os espaços são mínimos para desacordos, tão comuns nas relações humanas.

Já passei por isso, passo ainda, e acredito que vários irmãos pretos passam também. O “ser firmão”, nesse caso, nos desmorona. No fundo, somos sozinhos. Não no sentido em voga discutido, mas com receio de abrir mão do que parece ser a única nesga de “dignidade” que essa sociedade nos permitiu ter.

O silêncio parece ser o parceiro mais íntimo. Já que impede o “arregar”, e ele só é quebrado para reafirmar o eco de onde jazia uma ponte ligando tais amizades, para reafirmar a força, a posição invulnerável, mas de difícil sustentação emocional.

Homens Negros se toleram. E apenas na medida que sua vulnerabilidade não são exposta ou tocada, o que dá uma margem muito pequena de não-conflitos.

Vários lutos em vida. Por não sabermos realmente trocar, por termos um entendimento bem parco do que seja resolução. Até quando sem ampliarmos a dimensão do real significado da amizade e do afeto que dela deriva?

Obs: Este texto foi feito de maneira simultânea à leitura do capítulo “Waiting dad to come home“, do livro “We real cool“, da instigante bell hooks.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 18 de março de 2018.

Anúncios

Auto-ódio como motor das relações afetivas

Eu já devo ter escrito sobre isto em algum momento, mas acho que sempre cabe pontuar estas paradas. Nós somos o único povo que, ao se decepcionar nas relações intrarraciais, procuramos a solução em outros povos e de maneira mais intensa, com os toubobs.

Quando dizemos “não dá pra se relacionar mais com pret@s” sendo você uma pessoa preta, não é apenas os erros cometidos nas relações afetivas. É a assunção de algo errado de saída, do caráter, do comportamento, do histórico. É assumir a perspectiva racista que pessoas pretas ou são extremamente problemáticas ou não são de confiança, onde não se deve investir tempo e afeto na tentativa de construir algo conjunto. Essa desconfiança não fica restrita ao campo afetivo-sexual, porque é uma desconfiança irrestrita, logo, a todo o Povo Preto. Quem utilizou e construiu essa narrativa sobre nós fez isto durante séculos?

Temos a muito custo tentado construir uma narrativa que nos coloque no centro, que tenta por todas as vias nos fortalecer enquanto grupo, e na tentativa de surfar nessa “onda”, vários dos nossos mascaram seu racismo introjetado dando outros argumentos pra mostrar a sua aversão ao seu próprio povo, ou seja, a si mesmo. Ao dizer que estão “cansados de se envolver”. Me digam: que outro povo na face da terra utiliza tal argumento? O que isto diz sobre nós?

Não é uma regra, mas as escolhas com quem você decide construir e conviver no sentido íntimo dizem muito sobre as suas lealdades e sua solidariedade primeira.

Ainda temos projetada uma imagem distorcida de nós mesmos. Enquanto nos sentirmos “cansados” de outros pretos e pretas, a busca pela salvação sempre estará na brancura e em outras gradações raciais, o que nos coloca sempre numa condição de desequilíbrio.

Não existe avanço real sem comprometimento racial. O resto é mito grego.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 26 de novembro de 2018.

O Horror também educa…

Seguindo com o mesmo tom nas análises sobre as eleições de 2018. O ódio e a extrema polarização é a tônica.

O nível de ódio aos quais estamos vivendo, só uma experiência traumática desativa. Vemos as pessoas falando de bala, que vai matar, mas não sabem o que é a real agonia, o que é o Horror. Tem coisas que só a dor pode fazer, que só a dor pode educar. Não há política pública, não há educação, não há negociação. É como algo consumido pelo fogo: ou vira cinzas ou se torna imprestável.

Aos que tem esperança de diminuir os níveis de violência por meio do voto, gostaria de exemplos históricos neste sentido. O apaziguamento só se dá dentro de uma arena no qual há opções que jamais serão utilizadas. Este nível foi ultrapassado.

Aos meus, sobreviver vai se tornar mais custoso, não importa quem seja o eleito. Se o bolsocrazy vencer, o faroeste, à caça indiscriminada vai tá valendo, então trate de se cuidar por todos os meios necessários; se Haddad ou Ciro vencer, os correligionários do bolso ainda estarão ativos, numa pegada permanente de mobilização contrária ao governo instituído, o que em termos políticos e econômicos, nos coloca em uma situação de extrema vulnerabilidade. A negociação colocaria o governo muito mais inclinado à barbárie pra obter apoios.

Por isso, se você luta, intensifique seus treinos; Se não, procure algum meio de manter-se alerta e em segurança.

Procure meios reais de se proteger. Nossa carne é a mais barato do mercado desde sempre e pro próximo período, a desvalorização vai se intensificar ainda mais.

Que façamos que ela seja dura, mas difícil de engolir e digerir.

Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 04 de outubro de 2018