Auto-ódio como motor das relações afetivas

Eu já devo ter escrito sobre isto em algum momento, mas acho que sempre cabe pontuar estas paradas. Nós somos o único povo que, ao se decepcionar nas relações intrarraciais, procuramos a solução em outros povos e de maneira mais intensa, com os toubobs.

Quando dizemos “não dá pra se relacionar mais com pret@s” sendo você uma pessoa preta, não é apenas os erros cometidos nas relações afetivas. É a assunção de algo errado de saída, do caráter, do comportamento, do histórico. É assumir a perspectiva racista que pessoas pretas ou são extremamente problemáticas ou não são de confiança, onde não se deve investir tempo e afeto na tentativa de construir algo conjunto. Essa desconfiança não fica restrita ao campo afetivo-sexual, porque é uma desconfiança irrestrita, logo, a todo o Povo Preto. Quem utilizou e construiu essa narrativa sobre nós fez isto durante séculos?

Temos a muito custo tentado construir uma narrativa que nos coloque no centro, que tenta por todas as vias nos fortalecer enquanto grupo, e na tentativa de surfar nessa “onda”, vários dos nossos mascaram seu racismo introjetado dando outros argumentos pra mostrar a sua aversão ao seu próprio povo, ou seja, a si mesmo. Ao dizer que estão “cansados de se envolver”. Me digam: que outro povo na face da terra utiliza tal argumento? O que isto diz sobre nós?

Não é uma regra, mas as escolhas com quem você decide construir e conviver no sentido íntimo dizem muito sobre as suas lealdades e sua solidariedade primeira.

Ainda temos projetada uma imagem distorcida de nós mesmos. Enquanto nos sentirmos “cansados” de outros pretos e pretas, a busca pela salvação sempre estará na brancura e em outras gradações raciais, o que nos coloca sempre numa condição de desequilíbrio.

Não existe avanço real sem comprometimento racial. O resto é mito grego.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 26 de novembro de 2018.

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O Horror também educa…

Seguindo com o mesmo tom nas análises sobre as eleições de 2018. O ódio e a extrema polarização é a tônica.

O nível de ódio aos quais estamos vivendo, só uma experiência traumática desativa. Vemos as pessoas falando de bala, que vai matar, mas não sabem o que é a real agonia, o que é o Horror. Tem coisas que só a dor pode fazer, que só a dor pode educar. Não há política pública, não há educação, não há negociação. É como algo consumido pelo fogo: ou vira cinzas ou se torna imprestável.

Aos que tem esperança de diminuir os níveis de violência por meio do voto, gostaria de exemplos históricos neste sentido. O apaziguamento só se dá dentro de uma arena no qual há opções que jamais serão utilizadas. Este nível foi ultrapassado.

Aos meus, sobreviver vai se tornar mais custoso, não importa quem seja o eleito. Se o bolsocrazy vencer, o faroeste, à caça indiscriminada vai tá valendo, então trate de se cuidar por todos os meios necessários; se Haddad ou Ciro vencer, os correligionários do bolso ainda estarão ativos, numa pegada permanente de mobilização contrária ao governo instituído, o que em termos políticos e econômicos, nos coloca em uma situação de extrema vulnerabilidade. A negociação colocaria o governo muito mais inclinado à barbárie pra obter apoios.

Por isso, se você luta, intensifique seus treinos; Se não, procure algum meio de manter-se alerta e em segurança.

Procure meios reais de se proteger. Nossa carne é a mais barato do mercado desde sempre e pro próximo período, a desvalorização vai se intensificar ainda mais.

Que façamos que ela seja dura, mas difícil de engolir e digerir.

Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 04 de outubro de 2018