Eleições 2018: a vitória dos ressentidos

Fiz algumas postagens que foram em última instância, pequenas análises dos momentos eleitorais e do perfil dos candidatos, assim como das sensações e temperamentos do eleitorado. Creio que este texto será o derradeiro sobre o processo eleitoral que elegeu o candidato do PSL, jair m. bosolnaro. Comecei em novembro com o término já em 2019,  com alguns meses da eleição e passagem da faixa presidencial ao ex-capitão do exército. Foi importante deixar passar o tempo. Não muito pra não perder o fio da meada, mas também não tão pouco pra deixar que o furor e o pessimismo fossem os únicos guias destas linhas.

O que se pôde testemunhar é que a a ascensão e vitória do bolsonaro aglutinou uma camada muito grande e diversa da sociedade brasileira, das quais a maioria era volátil e votou por questões pragmáticas (mesmo que totalmente equivocadas e manipuladas): por o verem como uma figura nova, logo, com possibilidades de acabar com a crise econômica e desemprego, com os males da corrupção e outros desvios que tem feito parte da rotina de grande parte da população desde sempre, mas com especial atenção nos últimos 4 anos devido à exposição da Operação “Lava-Jato”.

Mas uma parte dos apoiadores do candidato vencedor o escolheu por tudo o que ele de fato representa: uma guinada política e ideológica como reação aos avanços dos grupos “subalternizados”, que ganharam um outro patamar na década passada, com os governos petistas.  Dois grupos se sentiram especialmente lesados com tais avanços: a classe média branca (e os satélites que ganham menos, mas se sentem no mesmo grupo) e parte majoritária dos evangélicos.

Para o primeiro grupo, o avanço das políticas de transferência de renda e o desenvolvimento econômico do país na década passada teve impactos profundos nas relações de trabalho com os mais pobres. Houve um deslocamento nítido na concepção dos “subalternos” quanto à qualidade do trabalho, com um nítido desafio ao viés escravagista dos contratos e das relações. Questionamento às condições, à paga, à contratação fez com que se buscasse os culpados para estas mudanças: além dos próprios, e também dos que possibilitaram com o partido dos trabalhadores, e por conseguinte, do seu líder máximo, Lula. Dentre tantos exemplos, um desses pode ser vista neste trecho:

Em São Paulo, a escassez é tamanha e os salários estão tão altos, que virou moda importar babás do Paraguai e da Bolívia (leia entrevista na página XX). Diante desse cenário, já se especulou até que as babás são uma profissão em extinção, mas os especialistas tranquilizam os pais dizendo que não – não desaparecerão. Mas há, sim, uma mudança em curso: elas caminham para se tornar um artigo de luxo, para poucos, como já se vê nos Estados Unidos e na França.

(http://revistadonna.clicrbs.com.br/noticia/quer-uma-baba-entre-na-fila/)

Um outro patamar nas relações sociais e raciais estava sendo forjado, com perda de espaço destes mais ricos frente aos demais. Não se trata de perda de dinheiro, de que o pobre tenha ganhado mais, porque este grupo também ganhou; trata-se da perda simbólica de poder, do mandonismo desmedido e da distinção que o acesso a bens provia a estes brancos frente aos não-brancos. Historicamente, a sociedade branca se constitui como tal em contraposição às demais, e no Brasil, em contraposição aos pretos e indígenas. Portanto, estreitar esta diferença foi vista como perda de terreno por parte de quem se viu e brigou para ser o pólo-matriz das relações. E para uma sociedade escravocêntrica, é preferível afundar o barco com todos dentro, do que permitir que o convés seja dividido com os que vivem no porão.

Para o segundo grupo, o sentimento de perda foi dos valores morais. Os avanços econômicos que também usufruiram não minou a noção de perda de uma ordem estabelecida, com avanços dos direitos sociais das mulheres,dos negros e dos gays, sobremaneira. Uma ética baseada numa vivência cristã estaria ameaçada pela inclusão nos currículos escolares da cultura afro-brasileira, do famigerado kit gay e no campo das relações de gênero, as mulheres numa revolução aos padrões masculinos. Isso foi entendido como uma guerra declarada ao ordenamento cristão de como o mundo deveria ser. O despedaçamento do mundo estava encarnado em Lula, mas mais enfaticamente em Dilma, com seu perfil pouco ortodoxo frente aos demais: pouco feminina (indócil), divorciada e possivelmente atéia.

A noção da perda de terreno político e simbólico, da mirabolância e crença destes minúsculos avanços (em vias de serem extintos) formaram um apoio substancial à vitória do bolsonaro em outubro.  Ele, portanto, foi um candidato do desalento, da busca da esperança numa visão idílica, onde todos pareciam mais felizes, sem tantas regras e contestações. Obviamente, esta é uma nostalgia fabricada, mas esta é a visão que permeia as falas e pronunciamentos do candidato eleito e de seus escolhidos para governar, pontuando a necessidade da volta aos padrões anteriores de mundo, no qual tudo se encaixava, tal como um quebra-cabeça perfeito, onde os lugares de todos estava muito bem definidos pela cultura escravocêntrica e cristã, sem permissão para grandes questionamentos.

O que se busca no fundo é uma segurança mítica, calcada numa falsa sensação de ordem antes das mudanças promovidas na década passada. É isto que bolsonaro encarna, com suas falas desencontradas e pouco articuladas. É a reafirmação de um país branco em sua essência, embora se diga multirracial, e cristão, pouco importando outros credos e vivências religiosas. Os ressentidos buscam um mundo que dificilmente voltará ao mesmo eixo como outrora. Mas eles não vão se negar a lutar por este oásis (pra quem?), custem as vidas [subalternizadas] que tiverem de custar.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), dia 03 de janeiro de 2019.

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Ódio, necropolítica e Tea Party tupiniquim: a receita eleitoral para 2018

                A opinião do recém-empossado governador de São Paulo, Márcio França sobre a polícia e sua ação sobre o episodio da PM que reagiu a uma tentativa de assalto matando o sujeito, me lembrou de um texto escrito em 2015, já com os sinais da grave crise política e de uma radicalização do ódio em forma político-eleitorais nos discursos e ações dos postulantes a cargos na política nacional.

               Impressionante como estamos parecidos com os Estados Unidos. Há alguns anos, uma parcela do eleitorado americano não se sentia representada pelos partidos, pelas representações formais, e passaram a se movimentar, de maneira difusa pra influir nos rumos da política americana. Esse movimento foi chamado de Tea Party. Irrompeu de tal forma pros lados de lá que forçou o pêndulo pra posições mais conservadoras dos partidos principais. Perderam força, mas deixaram um rastro de retrocesso político em sua passagem retumbante.

           Vivemos um momento muito parecido. Jair Bolsonaro é a nossa Sarah Palin. Ambos estúpidos, cristãos politiqueiros, mas com maior risco por estas bandas: a visibilidade que o Bolsonaro tem tido, o coloca como um presidenciável com chances. E dado o clima de medo/ódio ao qual estamos vivendo, ele parece muito como um novo Collor, pra salvar as classes médias e pobres iludidas dos “perigos” morais e sociais que estes tempos tem proporcionado a frágil sanidade e intenso bombardeio midiático destes estratos sociais.

               Estamos a um passo de um “Tea Party” brasileiro. O ódio irrompeu e contaminou o ambiente político, mais afeito à hipocrisia e demagogia, mas sem arroubos. Vemos hoje a aglutinação de um espectro político sem rosto, no qual erradamente colocamos o PSDB como cabeça. O PSDB está tentando capitalizar essa força política sem pai nem mãe, mas não apenas o PSDB. Vemos este discurso se espraiar por outras siglas, que apesar do fisiologismo brasileiro, tiveram pautas mais populares como o PDT e o PSB. A busca por votos tem exacerbado a retórica belicista dos partidos e tem se seguido o mesmo script já formulado, com as mesmas falsas soluções já conhecidas.

             Esse grupo, que se enxerga nos Bolsonaros e Felicianos da vida, já demonstrou sua força ao puxar o pendor político para um espectro mais doentio, visceral no ódio, no qual tudo é permitido para que as regras se modifiquem ao sabor de suas paixões e vontades.

           No meu entender, isso não é o problema maior. A elite branca no Brasil e no mundo sempre mudaram as regras quando viam que tinham riscos de perder privilégios. A História está cheia destes pontilhados. Mas o que surpreende é a adesão dos mais pobres. Uma disposição anti-política ativa, num endosso preocupante raiva canina da elite. Hoje o Tea Party tupiniquim comunga de pobres da quebrada, daquele que acorda as 5 da manhã, o gladiador do altar da Universal e o rentista que num sabe o que é calo na mão.

             Apesar de várias quebradas não terem feito panelaço, o panelaço mental tem sido imputado pela mídia. Tão levantando uma lebre que depois num vão aguentar o repuxo, e pior vai ser pros de sempre: pros pretos. Esse clima de ódio político não tá dissociado dos eventos sociais aos quais temos passado. Fiquemos ligeiros.

Edit: Matéria com o posicionamento do governador.

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/05/quem-ofender-a-policia-militar-corre-risco-de-vida-em-sp-diz-governador.shtml

Conservador ou Progressista?

Eu penso muito num período pós-apocalíptico. Daqueles que a humanidade se perde e vivemos o caos humanitário, num senso de humanidade perdida que só permite a barbárie. Os filmes e estas mudanças tão profundas dão esta sensação de escape, de tentar “segurar” a água com as próprias mãos.

Mas pensando em termos de povo preto, nós vivemos uma era apocalíptica há pelo menos 1.300 anos, com a escravização promovida pelos árabes aos povos africanos do Sahel e logo após, tivemos o seu ponto crítico com o início do comércio europeu e a intensificação do tráfico transatlântico. Os efeitos se puderam sentir nas duas pontas do Atlântico, com desarticulações societárias profundas e perda de capital humano sem paralelos na escala da humanidade.

O nosso mundo está despedaçado há mais de um milênio e estamos vivendo as consequências desse descalabro.

Portanto, a atribuição de conservador ou progressista (nomenclaturas políticas) às pessoas pretas me soa estranha ou algo fora de sua ordem, já que ambas as nomeações condizem e se baseiam num tempo de vivência catastrófica ao povo africano. Quando dizemos conservador, a qual tempo nos referimos? Se conservar quais valores e práticas? Localizando no contexto temporal, aonde estávamos quando se passou a querer conservar o status quo? O mesmo vale pro progresso, progressista. Uma palavra que condiz uma ideia mutável, utilizada por variados matizes do espectro político do passado e atual. Progredir de onde, sob quais bases?

Estar no mundo é dialogar e analisar com o que está posto, sem necessariamente tomar pra si o que tá colocado na mesa. Principalmente se não nos comporta.

Acredito que temos sim algo a conservar e o que progredir, mas que o que deveria nos mover não é visto como bandeira política por quem faz política. Porque a humanidade baseada nos princípios africanos de mundo é ainda vista como um “olhar que não abraça a complexificação da sociedade atual”, o que equivale dizer que as percepções africanas são primitivas, logo, não cabíveis.

Acho que devemos sim ser conservadores e progressistas, mas de uma base cultural e filosófica que não precise reafirmar a nossa humanidade, pois nela, nunca perdemos este status. Há fragmentos desta humanidade em solo brasileiro, nas expressões culturais e religiosas negro-africanas, mas devemos ir além.  Acho que a missão é realmente de resgate, de restaurar bases africano-filosóficas em nossas práticas e ter tais pontos como elementos-guia. Ir além dos parâmetros temporais que nos encaixam e nos rotulam, para escaparmos das armadilhas mentais que não alteram o mundo apocalíptico que ainda estamos vivendo.

Não se achar – ou não caber – nos pólos majoritários não é motivo de desorientação; ao contrário, é se enxergar numa lógica que transcende a pequenez do tabuleiro já que o componente que lhe é mais vital – a sua vida, seu povo – tem importância minimizada quando não é desimportante por quem movimenta as peças.

Centrar-se em Áfrika é o resgate de uma humanidade que nunca perdemos, mas que sempre nos foi negada nas lógicas que orientaram e orientam o brasil.
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Obs: Apesar de no texto não ter citações, esse texto teve influências da obra “Racismo e Sociedade”, do agba Carlos Moore.

As balas enquanto a política do (não) diálogo

Por: Tago E. Dahoma

Eu to querendo saber em que país se pacificou uma situação de ódio sem ser por conflito armado. Em quais lugares uma clivagem tão forte foi amansada em uma união pelo jogo democrático, nas urnas, sem antes haver o choque armado. Uma dúvida real e que parece estar cada vez mais presente no horizonte político nacional.

O erro continua. Dilma após a eleição em 2014, quis fazer um conluio (não dá pra chamar de outra coisa) com as mesmas pessoas que lhe quiseram a cabeça com uma maçã na boca, no ideal romantizado da escolha da maioria como elemento pacificador das profundas divisões existentes na sociedade brasileira e que ficaram patentes em pólos político-partidários.

Lula foi alvejado, axincalhado, e tem a própria liberdade em risco. E fala em respeito à democracia. Eu, ouvindo o ex-presidente, quase acreditaria que a situação institucional desse pardieiro estivesse prestes a se normalizar, já que a democracia está em vigor. De que raios ele fala? Quais os códigos estão em atuação no atual momento?

Entendo: A casa em chamas e o olhar nas colheitas primaveris. Como se a eleição fosse um jogo no qual o derrotado acataria o resultado após o investimento político e econômico que reduziu o país a um lugar pequeno, ao qual sempre esteve acotumado no tabuleiro mundial. Como se do Planalto viria o magistral plano de desmobilização de uma direita rançosa, vingativa e com ódio viperino da esquerda e de suas representações, mesmo que falsas. Escuto os espantos, as manifestações de respeito às instituições, e me choca como parece que o que aconteceu ao Lula fosse rio brotado em deserto seco. Assim como o que fizeram a Marielle.

Os pretos continuam a pagar o preço por todos os erros e acertos. Morremos a rodo na bonança, e continuamos a morrer no caos. As balas hoje nos nossos corpos são os desdobramento de um histórico calcado na resolução dos conflitos pela violência, pela ótica da desvalorização da vida. Por mais democrático que o país tenha se sentido, esta capa violenta sempre esteve presente, se fazendo de “pacificador” nos acertos e desacertos.
No fundo, esperança no quê de fato? Se for nas perspectivas políticas que tem se apresentado como solução do atual momento, uma “esperança desesperançada” toma forma, como esperar a água cair de uma jarra vazia. A solução me parece vir na fé em nós mesmos, por mais anti-tudo que isto possa parecer.

Realmente me incomoda estarmos a mercê das jogadas, das negociações de bastidores, dos conluios, das bravatas palanqueiras, da comoção seletiva, das desonras em morte.

Talvez o que pacifique seja o conflito. Que seja um conflito deles. Aberto, para quem sabe o horror trazido às casas e vidas dos distintos mostre-lhes a insensatez dos presentes atos e das ações que tem sido cometidas “aos fora do pleito”, de tez escura que sempre são o objeto dos discursos e argumentações, sejam por motivos “nobres” ou de justiciamento,  baseados nas ações sem real dotação, com pouco empenho real na resolução dos problemas que acometem-nos.

Que nos deixem de fora, já que sem conflito, mas com massacre, chacina, o brasil é mestre.

Se massacre pacificasse, o brasil seria o melhor lugar do mundo pra se viver.

Obs:
Notícias sobre os tiros a Lula: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43578246