Quando a polarização começou?

O processo de polarização política extrema que vivenciamos atualmente irrompeu quando? Se pensarmos politicamente, o pós-ditadura foi um sonífero no monstro que habita a alma brasileira, com o processo de democratização e um processo amplo de participação social na Constituinte agindo como elementos deste sonífero.

No passar das décadas, com seus altos e baixos, a violência extrema enquanto discurso político foi isolado do palco, com uma certa vergonha de ser apontado ou estar ligado a esta prática. Mas jamais foi apartado da prática. Carandiru, Candelária e Carajás mostram que o monstro enquanto prática era algo a ser sempre utilizado, principalmente se os corpos fossem negros e indígenas.

No entanto, o ponto culminante para que o monstro acordasse revitalizado, como discurso na arena política foi introduzida por Serra na eleição presidencial de 2010, as eleições das famigeradas bolinhas de papel que davam concussão (com direito a perito, o mesmo que atestou o suicídio do PC Farias em 1996) e do aborto como tema de campanha. Que reintroduziu o cristianismo como atestador de idoneidade política, fruto já de uma força neopentecostal que tinha no Congresso uma representação que não poderia mais ser ignorada. E de conluio se associaram a bancada ruralista e os outros lobbys..

O que parecia ser de foro íntimo, determinadas decisões morais, passaram a ser o eixo da campanha, fazendo a discussão sobre se “Dilma era a favor do aborto” ultrapassar temas referentes à toda a sociedade brasileira.

Ali começou a polarização de maneira irrevogável. Ali foi acordado o monstro, que apesar de ter ficado sonolento, sua sombra sempre pairou sobre a débil democracia brasileira.

O acúmulo de forças hoje mostra que, pelo horizonte que se apresenta, não há como fazer com que este monstro volte a dormir. Triste dizer que ele não é algo aparte da psiquê das pessoas. Ele é parte intrínseca. É o instinto assassino que ajudou a construir este território. E em mais um momento, o ódio se manifesta de forma clara e indubitável, com um apoio inequívoco.

O brasil não gosta de extirpar determinados monstros. Gosta de tê-los como farol, como uma vela no fundo da casa, que por vez ou outra, queima tudo, os móveis, cortinas e pessoas. Porém, ao se reconstruir, de modo mambembe, o lugar da vela está lá, garantido. Vivemos num looping, presos num labirinto, e só conseguiremos sair, quando este país resolver seus débitos, e o principal dele é a escravidão e seus desdobramentos contemporâneos. O ódio nacional deriva daí. E nada irá dar certo ou avançar enquanto parte significativa das pessoas  tem de viver e sobreviver a este ódio intenso e diuturno.

O monstro nunca descansou quando o objetivo era nos caçar.

Por: Thiago Soares (Tago E. Dahoma), em 02 de outubro de 2018.

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Quem abraça nossas dores?

Creio que este momento político me fez muito azedo ou pessimista. Ou ambas as coisas.

Eu entendo e compartilho de boa parte das manifestações contra os ataques fascistas, mas não consigo comprar a efusividade, a trilha sonora do “bem x mal”.. Eu olho, a partir da minha visão de mundo, e vejo nós pretos, nos mobilizando pra estar nos lugares, nos espaços organizados por outros.

Este movimento #Elenão é importante pelo que se evoca, pela não perda de direitos, pelo respeito à dignidade das pessoas e minorias políticas, mas na minha mente sempre vem os questionamentos sobre sempre estarmos – por sermos os mais vulneráveis – na disposição, nas trincheiras, na linha de frente (guerra do Paraguai é escola) mas entendam: Isto é importante porque os brancos acharam importante. Este movimento teve a dimensão que teve porque eles tomaram pra si o combate ao fascismo, porque isto lhes afeta sobremaneira.

Estamos juntos, mas as especificidades não são as mesmas. O fascismo não começou com o bolsocrazy. Não no nosso lombo. E os ecos sobre o tratamento aos nossos corpos e vidas tão aí em fartas provas, à direita e à esquerda, e as movimentações sempre foram tímidas.

Mas nos ataques à democracia, no que se concerne como geral – aí entendamos os direitos das pessoas brancas sendo postos em risco -, se enuncia uma perda de direitos geral, de todas as camadas, como se nessa média as perdas de todos fossem equivalentes. E nessa epifania, grassa o discurso generalista mesmo em meio às diferenças, quase como de uma democracia racial, de todos irmanados com todos. É quase um cheiro de festival, de uma esperança frente ao fascismo. Mas esperança pra quem? O megafone chamando atenção aos riscos e violências não parou por um só minuto desde a década passada.

A dor das pessoas brancas é é colocada como uma dor nossa, e a nossa dor é o que pra eles? A nossa especificidade é só nossa, a especifidade deles é universal. A lógica é a mesma de sempre, junto com os papéis de cada um.

Nós parecemos reservistas. Nos convocam no que parece o ataque à pátria e nós servimos (palavra bem a calhar). Vamos por nós, e acabamos indo por todo mundo. Fortalecemos a organização, somos parte. Mas não somos o centro.

Nós não cansamos nunca de sermos margem? De ser apoio? Não há “risco do fascismo” para pessoas pretas, porque já vivemos sob o terror. E nesta campanha pra evitar a eleição do bolsocrazy, estamos lutando pra evitar que o risco do fascismo chegue aos outros. Minha leitura pelo menos, é esta.

Enquanto não nos organizarmos, as nossas necessidades sempre serão utilizadas (instrumentalizadas).

Tenhamos consciência do nosso papel. Sem organização, somos a massa, os que aderem, os que apoiam, mas os que estão sempre por própria conta nas próprias questões. Que o entusiasmo criado pelos interesses alheios (que nos afetam) seja o mesmo pelo que apenas nos afeta.

Obrigado Tati Ribeiro Nefertari e Zaus Kush pelo seus lúcidos posicionamentos acerca das movimentações políticas do momento.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares)

Legislativo: o ator oculto nas eleições…

Nas eleições, todos os olhos vidrados na sucessão presidencial, e à raia miúda, pouca atenção aos legislativos, sobretudo o Congresso Federal. Quem de nós procura entender quais os mecanismos de eleição pra Câmara? Não se aprendeu nada após o “efeito Eduardo Cunha” e a virada de importância do Legislativo na gerência do país. Esse escroque mostrou como paspalhos numa panaceia conseguem acelerar ou trancar qualquer pauta, as de interesse próprio ou público.
 
As estratégias das esquerdas continuam pautadas no controle da máquina, ainda crendo que a distribuição do bolo (recursos e ministérios) entre a coligação satisfaz o apetite voraz da baixeza política no Congresso. Hoje eles sabem o poder que tem. Um impeachment mudou o padrão da relação senhorial entre Executivo e as casas legislativas. As fórmulas seguem o mesmo rito para uma temperatura e ambiente políticos completamente adversos dos encontrados nas eleições presidenciais anteriores.
 
A direita (lobby empresarial, rentista, agronegócio, bala, bíblia e outros tantos interesses) focam seus recursos nas eleições de deputados, pois podem ter um controle do mandato muito mais efetivo, e tendo o controle do mandato se direciona e pressiona as pautas, fortalecendo-as ou se colocando em contínua oposição. Em 2015, vimos o poder de bloqueio quando todas as medidas provisórias e projetos de lei enviadas pela presidente Dilma ao Congresso foram sumariamente barradas, gerando um “apagão” na condução do país.
 
Olho as esquerdas e a dúvida sobre a governabilidade caso conquistem o pleito presidencial ecoa cada vez mais forte. Uma ligeira impressão que pouco se aprendeu com um capítulo tão intenso na história recente do país.
 
O Legislativo deixou de ser apenas o lugar das negociatas parlamentares e bravatas. Desde 2015 tem fortalecido o seu poder como um efetivo player no cenário político decisório, e a maneira com que os pólos ideológicos em disputa tem se comportado frente a importância cada vez maior dessas casas tem marcado o sucesso ou fracasso político com relação às tomadas de decisões acatadas ou completamente rechaçadas.