Reflexões sobre o trabalho doméstico e seus impactos nos relacionamentos negros

O emprego doméstico ainda é o maior empregador de mulheres negras no país. Pensando historicamente, é a continuidade do modelo escravocrata no país, o que significa em muitos casos o mínimo de direitos e uma carga de trabalho extensa.

Já vi algumas reflexões sobre a dificuldade destas mulheres na criação dos próprios filhos, em muitos casos no passado tendo direito a vê-los uma vez por semana ou não tendo tempo para vê-los direito por causa da jornada de trabalho.

Mas e no campo do afeto? E no campo das relações afetivo-sexuais? To pensando aqui como é difícil encontrar história de mulheres negras que foram domésticas nesse regime escravo e mantiveram relacionamentos duradouros com seus parceiros. Com o tempo todo dedicado a uma outra familia, como estruturar a própria? Outro dado que complexifica são os assédios sexuais que muitas sofreram e sofrem ainda hoje. Muitas dessas investidas resultaram em estupros, em filhos.

Estas situações vividas pelas empregadas colocava complicações em estabelecer parceiros longevos. A estrutura racial ao utilizar esta mulher como posse, a destituiu de muitas possibilidades.

Na Afrika do Sul (Azania) nos tempos de apartheid, os homens iam fazer o trabalho doméstico com medo da violência às suas esposas.

Infelizmente não tivemos essa possibilidade como homens por aqui, e por não podermos proteger nossas consortes, companheiras, acabou por arranhar nossa percepção enquanto homem.

Não pôde proteger do dono do engenho e seus filhos, o mesmo acontecendo com o equivalente no pós-abolição. Pensar o universo do trabalho doméstico sem homens, sem relações estáveis também é um reflexo de como os desdobramentos do racismo rebatem na desestruturação das famílias negras.

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 6 de novembro de 2018.

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