Homens Pretos como pais/maridos nas propagandas: uma ausência calculada

As propagandas (aqui diferencio de comercial, já que o foco está mais nos signos do que no produto a ser comercializado) natalinas veiculados nas redes de televisão dizem muito qual o papel das famílias negras no conjunto do que é entendido como família: nulo.
 

Há vários outros arranjos com mulheres negras/pretas sorridentes com seus/suas pares, sejam com homens e mulheres brancas, ou até mesmo sozinhas, mas uma coisa muito significativa é a quase ausência do homem preto como pai/marido. Todas as outras alternativas referentes às mulheres negras estão sendo muito bem exploradas.

O reciclar das teses racistas em forma de imagem, mas de uma maneira bem sagaz: pela ausência. Ao invisibilizar os homens pretos nas representações que evocam responsabilidade com seu núcleo social, reafirmam a pecha de irresponsáveis, tão firmemente coladas aos homens pretos.

 

Quando este Homem Preto aparece, tem sido cada vez mais díficil vê-lo acompanhado de uma Mulher Preta, indicando que este arranjo familiar não é preferível ante todas as outras. Isto não é um “desleixo” ou um “descuido” dos publicitários.  Tem-se que parar de pensar na ingenuidade destes formuladores do pensamento de massa, e ver que a destruição das população negra (logo, das famílias pretas) foi um alvo explícito das políticas eugenistas no Brasil, e que tem sido, mas de uma maneira muito mais insidiosa, via uma perspectiva da democracia racial repaginada.

A reflexão que fica é a seguinte: cabe exigir representação em propagandas que visam extinguir uma das formas de expressão da família preta? Cabe reclamar pedindo alterações?
 
É preciso que decidamos quais os tipos de influência que queremos estar submetidos. Queremos ser tocados ou impelidos a consumir produtos de quem pensa em nossa supressão? Queremos pedidos de desculpas por eles se mostrarem como realmente são? Se queremos ser influenciados por quem, de uma maneira bem sutil, manda o recado de quais os tipos de famílias são válidas, e qual não é.
 

Se bebemos do poço envenenado, de nada adianta reclamar com o poço dos efeitos em nosso corpo e saúde, é preciso trocar a fonte.

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 13 de dezembro de 2018.

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