A verdade num mundo de “fake news”

O que aconteceu com a veiculação mentirosa sobre o passado de Marielle Franco, vereadora do PSOL-RJ assassinada no dia 15 de março, e a proporção que isto tomou (dentre tantos a repercutir a falsa notícia,  a desembargadora do Tribunal de Justiça do RJ, Marília Castro Neves foi uma), nos mostra que há um aprofundamento da guerra sobre informação. Antes via de mão única, transmitida pelos jornais e meios tradicionais de comunicação, hoje a informação tem diversas pontas e lados, o que produz uma teia irreal sobre fatos e acontecimentos, sobre histórias.
Entenda, diversos discursos sobre uma informação não produz verdade. Atualmente, a verdade é uma incoveniência que pode muito bem ser omitida ou atropelada pela fabricação do fato, da história.
As “fake news” nos colocam num outro patamar de veiculação da informação, dada a facilidade de sua dispersão, aliada à intenção real de produzir factóides ou destruir biografias. Por isso, a minha pergunta insistente sobre qual a sua fonte de informação, de contato com as notícias me parece importante. Quem se fia apenas nas redes virtuais, me parece ainda mais preso numa lógica que recebe a informação e não desconfia, não checa.

As fake news (notícias falsas) adensam o movimento de ressonância acrítica, no estilo fofoca. Como pegar no ar o som que ecoa? O rastreio permite chegar nos pólos difusores, mas realmente impactam na redução  das falsas informações?

Essa lógica acaba sendo muito mais perniciosa e perigosa às pessoas pretas, dado o imaginário racista que permeia insistentemente a sociedade brasileira. Pelo fato de ser uma pessoa oriunda da favela da Maré e atuar politicamente em favor da comunidade nos assuntos que lhe cabem (violação dos direitos humanos, abuso  e violência policial) foi o estopim para a fabricação de mentiras a respeito da Marielle Franco. A avalanche de críticas à possível participação de forças do Estado na sua morte ensejou uma força contrária, reacionária, com o intuito de manchar sua biografia e produzir dúvidas sobre seus vínculos e a partir disto, produzir outros cenários possíveis para o seu assassinato, fortalecendo a tese do crime (des)organizado como principal executor da ação. Por mais que hajam elementos que indiquem outras motivações para o trágico desfecho, são enxergados como algo irrelevante. Este é o efeito máximo da total desconsideração das evidências, mostrando-nos que a fabricação de fatos é uma verdade incontestável na nossa realidade atual.

Mas isto não se restringe apenas a ela. É comum vermos a veiculação de informações de pessoas pretas como bandidas, como estupradores e assassinos, sem o mínimo fundamento na realidade. O estrago que faz na vida destas pessoas é real, com várias perdendo o trabalho, e em alguns casos, pessoas sendo linchadas até a morte por notícias falsas. A correia de falsas informações não compreende e não quer compreender a lógica do contraditório, da presunção de inocência, e geralmente acessa o conjunto de valores mais viscerais das pessoas. Quando direcionados às pessoas pretas, acrescenta-se o ódio, componente fundamental da estrutura das relações raciais neste território.

A mídia sempre foi um lugar de fabricação de verdades, ou melhor dizendo, inverdades. Mas havia o lugar mínimo da cobrança. Hoje, isto se dificultou ainda mais já que há uma cacofonia na qual não sabemos o que ouvimos, ou apenas ouvimos as “verdades” que nos interessam, baseadas em nossos sentimentos emuitas vezes, ódios arraigados.
O fato é uma verdade. Mas a verdade do fato é sempre uma criação. Nisto, percebemos um afrouxamento dos critérios éticos nessa fabricação.
A Guerra pela Informação sempre foi tensa, pois informação é uma das conotações de poder, sobretudo pra quem controla o acesso e distribui a informação. Hoje, esta guerra  está encarniçada, sangrenta e sem regra alguma.
O provérbio das verdades (“Há a minha verdade, a sua verdade e a Verdade”) foi morto pelos tempos acríticos. A Verdade é universal, mas se encontra presa debaixo desses escombros. Cabe nos pergntar quanto tempo podemos perdurar enquanto ela estiver trancafiada lá.
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