Eleições brasileiras e big data: as armadilhas nas redes sociais

Há um tempo, pelo menos durante estes dois últimos anos, tenho pensado no impacto das redes sociais nas nossas interações e nas perspectivas de realidade. Algo que me chamou a atenção do perigo do uso dos nossos dados foi a eleição presidencial americana, com a vitória do Donald Trump em 2016, acabando com todos os prognósticos e apostas políticas dos institutos de pesquisa e do eleitorado americano. Na análise dos métodos que permitiram a vitória dele por lá, percebeu-se que os dados pessoais dos indíviduos nas redes sociais foram cruciais para estabelecerem perfis de convencimento (no caso dele) e de desmotivação (para Hillary Clinton, sua adversária).

Em 2017, os integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre, com uma origem bem nebulosa após as manifestações de 2013), em conversas no Whatsapp, se mostraram interessados no uso dos instrumentos da Cambridge Analytica para influenciar as eleições em favor do João Dória, assim como influenciaram as eleições americanas e o Brexit na Inglaterra. Segue abaixo o relato:

“No dia 16 de agosto, quando comentavam sobre a possível trucagem engendrada pela Rússia nas eleições dos Estados Unidos, um participante teclou sobre a consultoria política Cambridge Analytica, que teria usado bases de dados disponíveis na internet para influenciar a eleição de Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. Mesmo diante da postura cética de alguns membros, o participante enfatizou: ‘Isso é muito sério, gente. E podem ter certeza que vai ser usado aqui em 2018. Só espero que o Doria ja tenha fechado contrato de exclusividade com a Cambridge analytica [grifo meu].Rss.'” (Reportagem da Revista Piauí, em 03 de outubro de 2017, sob o título “O Grupo da Mão Invisível”).

O que temos em uso são os nossos dados pessoais fornecendo um campo de informações tão específicas, que está sendo possível elaborar nossos perfis de maneira muito fidedigna. O campo da manipulação nas redes sociais é uma mina de ouro, no qual a extrema direita está nadando de braçada. Influenciar a nível de consumo é apenas um dos braços mais “éticos”, mas é nítido que o ideal é utilizar as redes sociais, que deixaram há muito de serem interfaces da realidade para serem praticamente a realidade-em-si, para manipular as vontades, desejos e ações dos indíviduos de maneira bem perigosa e muitas das vezes, contrárias ao seu real interesse.

Costuma-se pensar a nível de senso comum que as redes sociais são como as relações pessoais, como se fossem algo direto, mas a grande questão é o intermediário que quase nunca é citado, e que busca a cada momento obter mais informações sobre as nossas atividades e tendências, afim de não apenas antever os nossos passos e atividades, mas também usá-las, sejam para atividades comerciais ou para uso político, como temos visto.

Nisto, entra o fenômeno bolsonaro. As táticas utilizadas pela militância do candidato são extremamente semelhantes ao do presidente americano, com perfis falsos com o intuito de influenciar um conjunto de pessoas a partir de suas vontades e inclinações. Como eu havia dito em um outro post, a verdade passa a ser apenas mais uma versão num mundo de fake news, e as possibilidades de multiplas versões sobre os fatos – assim como sua negação – e a veiculação sistemática destas versões faz com que não se questionem os pressuspostos, tampouco a conduta do bolsonaro. Não importam as múltiplas provas contrárias à sua conduta, já que a multiplicação das versões que lhes são benéficas sobressaem sobre as outras. As correntes no Whatsapp são exemplos nítidos deste fenômeno.

Algo que me chamou a atenção durante a campanha e que pude entender com os escândalos da Cambridge Analytica foi a ausência de material de campanha deste candidato nas minhas redes sociais. Comecei a me questionar o por quê de tantas pessoas famosas, e celebridades declararem apoio imediato no candidato. O que recebi foram materiais de combate à sua pessoa e à sua candidatura. E algo nítido é que estas duas redes de informação não se intercambiam. As bolhas informativas são cada vez mais sólidas e rígidas, e dado a importância das redes sociais como veiculadoras de informação, há um hiato no lugar comum, já que este foi esfarelado em perspectivas da realidade a depender do perfil do indivíduo. A polarização política foi apenas intensificada por este método, já que se perde espaços de contato, tanto na diversidade das pessoas quanto nas fontes e conteúdos das notícias.

Estamos brigando com parentes, amigos, entre os nossos familiares, por conta sobretudo de um ardil que tem influenciado o comportamento de milhões de pessoas ao redor do globo. Há pessoas que nitidamente sabem o que estão fazendo por se sentirem em uma certa “revanche” contra os avanços sociais e políticos da última década, e que viram na ascensão de negros, mulheres e lgbts um ataque ao seu direito manifesto de ser hegemônico. No entanto, o espectro de apoiadores de bolsonaro inclui exatamente quem ele não tem o menor apreço, e isto deve ser questionado. Vemos perfis que seriam alvos de suas políticas restritivas e bélicas defendendo-o de maneira acrítica, quase que numa perspectiva moral. No meu entender, isto tem mais a ver com a rede de informações que esta pessoa está vinculada do que exatamente uma falha de caráter. A propaganda foi elevada a um nível de micro-detalhe, o que a torna ainda mais perigosa. Cabe mais do que nunca o diálogo com aquele que amamos e conhecemos profundamente os príncípios. A virtualidade do mundo permite um excesso de notícias que tem nos afogado em desinformação. Estamos cada vez mais analfabetos virtuais e isto tem fortalecido ideais mais cruéis.

A big data definiu esta eleição, seja qual for o resultado do dia 28 de outubro. Temos visto com frequência o vazamento de informações sigilosas dos usuários do Facebook, além de falhas na segurança do Twitter, entre outras. O acesso ao nosso comportamento é uma leitura poderosa do que pensamos, de nossos anseios e não parece haver freios eficazes a estes usos. A união européia, capitaneada pela alemanha já cria uma legislação mais rigorosa sobre esta finalidade dos dados e do acesso dos usuários sobre eles, e nos estados unidos o escandâlo da eleição do trump ensejam novos olhares sobre as redes sociais. E no brasil? Apesar dos nossos dados não serem tão disponíveis como nos estados unidos, a facilidade com que se interfere e manipula as ações dos usuários coloca um horizonte ainda mais sombrio para o futuro. Quem souber pagar à agência certa, leva o país inteiro. Pouco importando se falta credenciais para o cargo.

Por Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 17 de outubro de 2018.

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link da reportagem: https://piaui.folha.uol.com.br/o-grupo-da-mao-invisivel/

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O Horror também educa…

Seguindo com o mesmo tom nas análises sobre as eleições de 2018. O ódio e a extrema polarização é a tônica.

O nível de ódio aos quais estamos vivendo, só uma experiência traumática desativa. Vemos as pessoas falando de bala, que vai matar, mas não sabem o que é a real agonia, o que é o Horror. Tem coisas que só a dor pode fazer, que só a dor pode educar. Não há política pública, não há educação, não há negociação. É como algo consumido pelo fogo: ou vira cinzas ou se torna imprestável.

Aos que tem esperança de diminuir os níveis de violência por meio do voto, gostaria de exemplos históricos neste sentido. O apaziguamento só se dá dentro de uma arena no qual há opções que jamais serão utilizadas. Este nível foi ultrapassado.

Aos meus, sobreviver vai se tornar mais custoso, não importa quem seja o eleito. Se o bolsocrazy vencer, o faroeste, à caça indiscriminada vai tá valendo, então trate de se cuidar por todos os meios necessários; se Haddad ou Ciro vencer, os correligionários do bolso ainda estarão ativos, numa pegada permanente de mobilização contrária ao governo instituído, o que em termos políticos e econômicos, nos coloca em uma situação de extrema vulnerabilidade. A negociação colocaria o governo muito mais inclinado à barbárie pra obter apoios.

Por isso, se você luta, intensifique seus treinos; Se não, procure algum meio de manter-se alerta e em segurança.

Procure meios reais de se proteger. Nossa carne é a mais barato do mercado desde sempre e pro próximo período, a desvalorização vai se intensificar ainda mais.

Que façamos que ela seja dura, mas difícil de engolir e digerir.

Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 04 de outubro de 2018

Quem abraça nossas dores?

Creio que este momento político me fez muito azedo ou pessimista. Ou ambas as coisas.

Eu entendo e compartilho de boa parte das manifestações contra os ataques fascistas, mas não consigo comprar a efusividade, a trilha sonora do “bem x mal”.. Eu olho, a partir da minha visão de mundo, e vejo nós pretos, nos mobilizando pra estar nos lugares, nos espaços organizados por outros.

Este movimento #Elenão é importante pelo que se evoca, pela não perda de direitos, pelo respeito à dignidade das pessoas e minorias políticas, mas na minha mente sempre vem os questionamentos sobre sempre estarmos – por sermos os mais vulneráveis – na disposição, nas trincheiras, na linha de frente (guerra do Paraguai é escola) mas entendam: Isto é importante porque os brancos acharam importante. Este movimento teve a dimensão que teve porque eles tomaram pra si o combate ao fascismo, porque isto lhes afeta sobremaneira.

Estamos juntos, mas as especificidades não são as mesmas. O fascismo não começou com o bolsocrazy. Não no nosso lombo. E os ecos sobre o tratamento aos nossos corpos e vidas tão aí em fartas provas, à direita e à esquerda, e as movimentações sempre foram tímidas.

Mas nos ataques à democracia, no que se concerne como geral – aí entendamos os direitos das pessoas brancas sendo postos em risco -, se enuncia uma perda de direitos geral, de todas as camadas, como se nessa média as perdas de todos fossem equivalentes. E nessa epifania, grassa o discurso generalista mesmo em meio às diferenças, quase como de uma democracia racial, de todos irmanados com todos. É quase um cheiro de festival, de uma esperança frente ao fascismo. Mas esperança pra quem? O megafone chamando atenção aos riscos e violências não parou por um só minuto desde a década passada.

A dor das pessoas brancas é é colocada como uma dor nossa, e a nossa dor é o que pra eles? A nossa especificidade é só nossa, a especifidade deles é universal. A lógica é a mesma de sempre, junto com os papéis de cada um.

Nós parecemos reservistas. Nos convocam no que parece o ataque à pátria e nós servimos (palavra bem a calhar). Vamos por nós, e acabamos indo por todo mundo. Fortalecemos a organização, somos parte. Mas não somos o centro.

Nós não cansamos nunca de sermos margem? De ser apoio? Não há “risco do fascismo” para pessoas pretas, porque já vivemos sob o terror. E nesta campanha pra evitar a eleição do bolsocrazy, estamos lutando pra evitar que o risco do fascismo chegue aos outros. Minha leitura pelo menos, é esta.

Enquanto não nos organizarmos, as nossas necessidades sempre serão utilizadas (instrumentalizadas).

Tenhamos consciência do nosso papel. Sem organização, somos a massa, os que aderem, os que apoiam, mas os que estão sempre por própria conta nas próprias questões. Que o entusiasmo criado pelos interesses alheios (que nos afetam) seja o mesmo pelo que apenas nos afeta.

Obrigado Tati Ribeiro Nefertari e Zaus Kush pelo seus lúcidos posicionamentos acerca das movimentações políticas do momento.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares)

Legislativo: o ator oculto nas eleições…

Nas eleições, todos os olhos vidrados na sucessão presidencial, e à raia miúda, pouca atenção aos legislativos, sobretudo o Congresso Federal. Quem de nós procura entender quais os mecanismos de eleição pra Câmara? Não se aprendeu nada após o “efeito Eduardo Cunha” e a virada de importância do Legislativo na gerência do país. Esse escroque mostrou como paspalhos numa panaceia conseguem acelerar ou trancar qualquer pauta, as de interesse próprio ou público.
 
As estratégias das esquerdas continuam pautadas no controle da máquina, ainda crendo que a distribuição do bolo (recursos e ministérios) entre a coligação satisfaz o apetite voraz da baixeza política no Congresso. Hoje eles sabem o poder que tem. Um impeachment mudou o padrão da relação senhorial entre Executivo e as casas legislativas. As fórmulas seguem o mesmo rito para uma temperatura e ambiente políticos completamente adversos dos encontrados nas eleições presidenciais anteriores.
 
A direita (lobby empresarial, rentista, agronegócio, bala, bíblia e outros tantos interesses) focam seus recursos nas eleições de deputados, pois podem ter um controle do mandato muito mais efetivo, e tendo o controle do mandato se direciona e pressiona as pautas, fortalecendo-as ou se colocando em contínua oposição. Em 2015, vimos o poder de bloqueio quando todas as medidas provisórias e projetos de lei enviadas pela presidente Dilma ao Congresso foram sumariamente barradas, gerando um “apagão” na condução do país.
 
Olho as esquerdas e a dúvida sobre a governabilidade caso conquistem o pleito presidencial ecoa cada vez mais forte. Uma ligeira impressão que pouco se aprendeu com um capítulo tão intenso na história recente do país.
 
O Legislativo deixou de ser apenas o lugar das negociatas parlamentares e bravatas. Desde 2015 tem fortalecido o seu poder como um efetivo player no cenário político decisório, e a maneira com que os pólos ideológicos em disputa tem se comportado frente a importância cada vez maior dessas casas tem marcado o sucesso ou fracasso político com relação às tomadas de decisões acatadas ou completamente rechaçadas.