Quem abraça nossas dores?

Creio que este momento político me fez muito azedo ou pessimista. Ou ambas as coisas.

Eu entendo e compartilho de boa parte das manifestações contra os ataques fascistas, mas não consigo comprar a efusividade, a trilha sonora do “bem x mal”.. Eu olho, a partir da minha visão de mundo, e vejo nós pretos, nos mobilizando pra estar nos lugares, nos espaços organizados por outros.

Este movimento #Elenão é importante pelo que se evoca, pela não perda de direitos, pelo respeito à dignidade das pessoas e minorias políticas, mas na minha mente sempre vem os questionamentos sobre sempre estarmos – por sermos os mais vulneráveis – na disposição, nas trincheiras, na linha de frente (guerra do Paraguai é escola) mas entendam: Isto é importante porque os brancos acharam importante. Este movimento teve a dimensão que teve porque eles tomaram pra si o combate ao fascismo, porque isto lhes afeta sobremaneira.

Estamos juntos, mas as especificidades não são as mesmas. O fascismo não começou com o bolsocrazy. Não no nosso lombo. E os ecos sobre o tratamento aos nossos corpos e vidas tão aí em fartas provas, à direita e à esquerda, e as movimentações sempre foram tímidas.

Mas nos ataques à democracia, no que se concerne como geral – aí entendamos os direitos das pessoas brancas sendo postos em risco -, se enuncia uma perda de direitos geral, de todas as camadas, como se nessa média as perdas de todos fossem equivalentes. E nessa epifania, grassa o discurso generalista mesmo em meio às diferenças, quase como de uma democracia racial, de todos irmanados com todos. É quase um cheiro de festival, de uma esperança frente ao fascismo. Mas esperança pra quem? O megafone chamando atenção aos riscos e violências não parou por um só minuto desde a década passada.

A dor das pessoas brancas é é colocada como uma dor nossa, e a nossa dor é o que pra eles? A nossa especificidade é só nossa, a especifidade deles é universal. A lógica é a mesma de sempre, junto com os papéis de cada um.

Nós parecemos reservistas. Nos convocam no que parece o ataque à pátria e nós servimos (palavra bem a calhar). Vamos por nós, e acabamos indo por todo mundo. Fortalecemos a organização, somos parte. Mas não somos o centro.

Nós não cansamos nunca de sermos margem? De ser apoio? Não há “risco do fascismo” para pessoas pretas, porque já vivemos sob o terror. E nesta campanha pra evitar a eleição do bolsocrazy, estamos lutando pra evitar que o risco do fascismo chegue aos outros. Minha leitura pelo menos, é esta.

Enquanto não nos organizarmos, as nossas necessidades sempre serão utilizadas (instrumentalizadas).

Tenhamos consciência do nosso papel. Sem organização, somos a massa, os que aderem, os que apoiam, mas os que estão sempre por própria conta nas próprias questões. Que o entusiasmo criado pelos interesses alheios (que nos afetam) seja o mesmo pelo que apenas nos afeta.

Obrigado Tati Ribeiro Nefertari e Zaus Kush pelo seus lúcidos posicionamentos acerca das movimentações políticas do momento.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares)

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