Homens Pretos como pais/maridos nas propagandas: uma ausência calculada

As propagandas (aqui diferencio de comercial, já que o foco está mais nos signos do que no produto a ser comercializado) natalinas veiculados nas redes de televisão dizem muito qual o papel das famílias negras no conjunto do que é entendido como família: nulo.
 

Há vários outros arranjos com mulheres negras/pretas sorridentes com seus/suas pares, sejam com homens e mulheres brancas, ou até mesmo sozinhas, mas uma coisa muito significativa é a quase ausência do homem preto como pai/marido. Todas as outras alternativas referentes às mulheres negras estão sendo muito bem exploradas.

O reciclar das teses racistas em forma de imagem, mas de uma maneira bem sagaz: pela ausência. Ao invisibilizar os homens pretos nas representações que evocam responsabilidade com seu núcleo social, reafirmam a pecha de irresponsáveis, tão firmemente coladas aos homens pretos.

 

Quando este Homem Preto aparece, tem sido cada vez mais díficil vê-lo acompanhado de uma Mulher Preta, indicando que este arranjo familiar não é preferível ante todas as outras. Isto não é um “desleixo” ou um “descuido” dos publicitários.  Tem-se que parar de pensar na ingenuidade destes formuladores do pensamento de massa, e ver que a destruição das população negra (logo, das famílias pretas) foi um alvo explícito das políticas eugenistas no Brasil, e que tem sido, mas de uma maneira muito mais insidiosa, via uma perspectiva da democracia racial repaginada.

A reflexão que fica é a seguinte: cabe exigir representação em propagandas que visam extinguir uma das formas de expressão da família preta? Cabe reclamar pedindo alterações?
 
É preciso que decidamos quais os tipos de influência que queremos estar submetidos. Queremos ser tocados ou impelidos a consumir produtos de quem pensa em nossa supressão? Queremos pedidos de desculpas por eles se mostrarem como realmente são? Se queremos ser influenciados por quem, de uma maneira bem sutil, manda o recado de quais os tipos de famílias são válidas, e qual não é.
 

Se bebemos do poço envenenado, de nada adianta reclamar com o poço dos efeitos em nosso corpo e saúde, é preciso trocar a fonte.

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 13 de dezembro de 2018.

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O choro é a solução? Das sensibilidades em meio ao terror..

Se diz aos Homens Pretos: chorem mais, se abram..
 
Aì eu penso como é que dá pra fazer isto num contexto de guerra, ou melhor de massacre, de ódio, de indiferença, de caçada, de extermínio e extremo terror. O que fica quando você está em contato com sentimentos de frustração, de angústia, de mágoa, de dor, de perda, de luto, num contexto que você pode ser o próximo a tombar por um movimento brusco, por uma acusação devida ou indevida, por passar na rua errada, estar no bairro errado?
 
As cachaças, os psicotrópicos, os porres, os sambas foram os refúgios, os escapes emocionais a uma estrutura desumanizante. O choro é ali aos borbotões, no transbordo pra num enlouquecer
 
Somos soldados em uma guerra da qual nunca quisemos fazer parte, sendo convocados a contragosto e participando como bucha. Àqueles que tem consciência do que é o racismo ou simplesmente tem noção do que é o ódio anti-preto em sua essência, sabem que tem que ser guerrilheiros em meios às vivências cotidianas. Se olharmos bem, o que foram os boêmios, Parte considerável dos malandros? Mestres na arte da sobrevivência.

Olhe o choro nos sambas, nas músicas escritas e cantadas com emoção.. Olha o choro na cachaça, no silêncio, no riso triste e no alegre,no sorriso que só arreganha os dentes mas num é espelho d’alma. Nos tragos e vícios..

É preciso olhar para o que este Homem Preto e entender quais foram as suas estratégias de sobrevivência física e emocional para não sucumbir a uma estrutura que o vê como caça a ser abatida deste o útero. E isto não é dizer que ele está conseguindo se manter firmão, mas ver qual que é do jogo.
 
As guerras costumam ter um fim. Assim, os traumas deveriam ser tratados. Mas e quando a guerra psicológica é ininterrupta? Transpassa a vida? E quando o terror te forja o comportamento, os limites?
Que Pai Preto hoje minimamente consciente e leal à sua família não pensa em passar pros filhos um manual que os permita viver o máximo de tempo possível num mundo que visa a sua eliminação constante? O que não fazer, como não reagir, como não provocar.. O amor que parece tirado dos livros do Sun Tzu..
 
Alguém já pensou nos silêncios masculinos como refúgio último da dignidade pra lidar com uma vida da qual quase nada se tem controle e que tá sempre em risco?
 
Aí continua a pergunta: chorar é a resposta? Chorar é descanso, é relaxo muscular. Quando que dá? Essa sensibilidade nesse caos tem de ser posta em outro lugar..

Eu penso nestas fitas e vejo que chorar nem rola. O que rola é só a lágrima caindo do olho pra umedecer. A sensibilidade tá em outro campo, tá num refúgio, num lugar sem nome. Pra se abrir em segurança, sozinho, sem ter chance pra arregaço e retaliação.

Mas estas são só brisas minhas, mesmo.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 30 de novembro de 2018..