Auto-ódio como motor das relações afetivas

Eu já devo ter escrito sobre isto em algum momento, mas acho que sempre cabe pontuar estas paradas. Nós somos o único povo que, ao se decepcionar nas relações intrarraciais, procuramos a solução em outros povos e de maneira mais intensa, com os toubobs.

Quando dizemos “não dá pra se relacionar mais com pret@s” sendo você uma pessoa preta, não é apenas os erros cometidos nas relações afetivas. É a assunção de algo errado de saída, do caráter, do comportamento, do histórico. É assumir a perspectiva racista que pessoas pretas ou são extremamente problemáticas ou não são de confiança, onde não se deve investir tempo e afeto na tentativa de construir algo conjunto. Essa desconfiança não fica restrita ao campo afetivo-sexual, porque é uma desconfiança irrestrita, logo, a todo o Povo Preto. Quem utilizou e construiu essa narrativa sobre nós fez isto durante séculos?

Temos a muito custo tentado construir uma narrativa que nos coloque no centro, que tenta por todas as vias nos fortalecer enquanto grupo, e na tentativa de surfar nessa “onda”, vários dos nossos mascaram seu racismo introjetado dando outros argumentos pra mostrar a sua aversão ao seu próprio povo, ou seja, a si mesmo. Ao dizer que estão “cansados de se envolver”. Me digam: que outro povo na face da terra utiliza tal argumento? O que isto diz sobre nós?

Não é uma regra, mas as escolhas com quem você decide construir e conviver no sentido íntimo dizem muito sobre as suas lealdades e sua solidariedade primeira.

Ainda temos projetada uma imagem distorcida de nós mesmos. Enquanto nos sentirmos “cansados” de outros pretos e pretas, a busca pela salvação sempre estará na brancura e em outras gradações raciais, o que nos coloca sempre numa condição de desequilíbrio.

Não existe avanço real sem comprometimento racial. O resto é mito grego.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 26 de novembro de 2018.

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