Entre leões, hienas e suricatos: a quem serve uma Áfrika animalizada?

Pesquisar Áfrika como elemento turístico e perceber quais são as respostas. Dei uma olhada na rede social Instagram e fui ver as imagens. A grande maioria das fotos focaram nos animais do Continente-Mãe. O conteúdo imagético sobre o Continente é substancialmente alheio aos afrikanos que lá vivem, do que fazem e do que construíram. Isto tem questões mais profundas do que estas imagens parecem transmitir. Qual outro lugar na face da terra sofre um esvaziamento do seu conteúdo humano e elevação da importância animal tal qual o continente dos Serer, Ovibundos, Nuba e Xhona?

Se a Áfrika positiva é a dos safáris, da busca animal, o é na lógica de quem? Não pensar o Continente do ponto de vista humano valida o papel terceirizado que tem sido atribuído aos povos afrikanos nas narrativas europeias e asiáticas há pelo menos 1300 anos.

Se Áfrika é vista, lembrada e veiculada enquanto savana, qual a importância da tecnologia dos povos San, dos Twa, estes um dos mais antigos humanos a caminhar sob a Terra? Se Ela for um leão, qual a relevância dos Dogon na análise dos cosmos e dos astros e de suas descobertas séculos antes de qualquer pesquisa e observação astronômica na europa? Se for a observação de um manada de elefantes o ponto principal, qual o interesse nos kemethyus-cushitas e suas engenharias milenares, como as pirâmides e artefatos estremamente sofisicados aos olhos atuais? Sem tocar nas emoções mais cândidas* e intensas das pessoas, mas se olharmos qual o maior sucesso em termos de exposição “positiva”do Continente no mundo todo, não havia uma única pessoa como imagem, senão animais falantes. Obviamente, o megasucesso dos estudios Disney, “Rei Leão” (1994), prestes a ser reveiculado nos cinemas do mundo todo numa outra tecnologia de animação.

Afrika animalizada põe os povos do continente numa lógica que orbita o interesse turístico nos animais, como satélites, no qual a manifestação das culturas em suas danças, cantos e expressões fosse apenas o entreato do show principal. Como se a evolução destes povos fosse pareado com a evolução dos bichos (mais lenta aos nossos olhos históricos), vistos de uma maneira tão exótica quanto fixada no tempo, mas ainda assim, (semi) humanos em seus olhares turísticos.

Isto tem um sentido óbvio: de por um véu na real contribuição de Afrikanos e Afrikanas no desenvolvimento social e tecnológico de todos os povos que com eles tiveram contato.

Nos animalizar não é uma tática recente. Porém, o legado de nossa grandeza é vasto e profundo demais para ser apagado. Ainda assim, as tentativas persistem e se sofisticam.

Não há uma oposição entre nós e os animais. Não em nossas visões sobre a Unicidade das coisas. Mas o que definitivamente não podemos aceitar são as hierarquias postas, num nítido movimento de valorização ao que não desenvolvemos, porque não está sob controle da humanidade. Vendo um vídeo de um mais velho do continente* em uma entrevista, ele citava algo que me marcou profundamente:“Ninguém viaja à Áfrika para ver pessoas”.

Se não se viaja à Áfrika para ver as pessoas, logo, não se viaja para conhecer a história, sobretudo a que realmente deve ser pesquisada e difundida. Que façamos entre nós o objetivo primeiro então. Não apenas por resgate histórico frente às nossas lacunas. Mas para mostrar que Afrikanos e Afrikanas  em sua diversidade e profundidade civilizacional são um universo que a cegueira deliberada dos toubobs insistem em não perceber, com efeitos realmente pertubardores em nós, filhos do Continente-Mãe em todos os lugares do globo.

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 21 de dezembro de 2018.

Obs: Vi o vídeo há pouco tempo e vi o nome do mais velho: é Hugh Masekela, um jazzista de Azânia (Afrika do Sul), que se encontrou com os ancestrais em 2018, aos 79 anos…..

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“Jesus te ama viu, moço?”

O que mais falta nessa fala é amor. É ódio travestido de preocupação. As vestes brancas numa noite bonita, a alma ainda leve ao sair do candomblé, feliz pelo (re)nascimento de um amigo muito querido. Ao fim da ladeira, três mulheres, das quais consegui observar apenas duas. A terceira, como me pregando uma peça, diz a dita frase. “Jesus te ama viu, moço?”.

A minha resposta ao que foi enunciado não importa. A raiva e a dor já estava instalada pela violência cometida. Dói porque traz em si a perversidade do racismo brasileiro, quando quer atingir fingindo inocência. Quem escuta sem ser do axé não vê nada demais, até diria que foi um gesto fraterno; para mim, foi o gatilho emocional que acessou um campo enorme de informações e sentimentos mistos: a armadilha cristã em Áfrika, ao dizer que as divindades cultuadas no Continente-Mãe são o mal e pela necessidade da salvação na renúncia da fé dos pais e avós; a subserviência a um tipo de “amor” e relação com o sagrado que não me contempla, mas que na mente destes cristãos, me serviria; a total ojeriza à minha manifestação de fé, traduzido em minhas vestes brancas, motivo para a frase dessa “cristã”.

O racismo tem dessas artimanhas irracionais. Tarde da noite, um homem negro na rua. Geralmente, o medo seria o normal, o atravessar de calçada, se afastando do “perigo”. No entanto, o ódio às insígnias afrikanas que eu carregava deu impulso para ação, para atacar, de maneira sutil: como um conselho, como um chamado, como um alerta. Uma fala entremeada por medo, quase se escondendo, mas ainda assim, feita sem maiores pudores. É uma noção de auto-importância descabida, como se eu fosse um jarro com água impura, das qual eles querem trocar por líquido límpido. A única água realmente pura é a que eles dizem ter, mesmo que a minha me sacie.

“Jesus te ama” é uma maneira aparentemente inocente de dizer que não importa sua fé, se ela te dá suporte emocional e espiritual, se te permite o auto-conhecimento, se fortalece teus elos comunitários, aprofunda seus conhecimentos sobre a humanidade e sobre o Divino, nada disso importa. A fala é apenas a ponta de um iceberg profundo que visto em toda a sua magnitude, permite apedrejamentos, discriminação dos mais diversos níveis, invasão e queima de terreiros e no seu ponto mais crítico, assassinatos. A base conceitual, filosófica e religiosa é a que valida todas essas ações doentias. Auto-centrada e invasiva, incapaz de conviver com o Outro, porém prontamente mais mordaz  e persistente quando este Outro é a representação da fé e espiritualidade afrikanas em corpos pretos.

A pergunta que cabe é como eu posso ser tolerante com este tipo de atitude? Como levar na esportiva algo que é feito pra me ferir? Seria responder “Exu também te ama”? Mas não tem como eu misturar Exu como resposta ao ódio que senti por aquela moça. Eu amo Pai Exu, provavelmente mais do que aquela moça deve amar Jesus, já que não utilizo o meu sagrado como laço de gado ou truque aos outros. O meu sagrado não é rede de pesca jogada a esmo pra catar nada nem ninguém.

As nossas divindades dançam, comungam conosco, se alegram, se fartam e se emocionam em nossa presença. Sentimos seu afago, seu toque e a vibração de sua presença por intermédio de seus descendentes em terra. Isto certamente abala as certezas de quem não sabe ver Deus em manifestações tão vivas, que só lhes faz sentido associar o que não compreendem ao mal pra lhes dar segurança da própria crença, da propria fé. O cristianismo destas pessoas é oco, pois permeado por medo e receio da vivacidade do que o universo afrikano evoca e produz.

Não acredito em credos tão vazios, que só se sentem completos e seguros quando ocupam sozinhos o coração e mente das pessoas. Tampouco acredito em um céu ou em um deus que prefira a minha infelicidade ao ter de cultuar algo que nada diz sobre a minha história e a história dos meus ancestrais. Um deus a fórceps sobre a bandeira do amor. Nada mais condizente com a trajetória deste cristianismo belicoso, com seus milhões de vítimas espalhados pelo globo.

Não sei a quem Jesus ama. Se o dito na bíblia ou dito pelas bocas de tantos hipócritas .Se levarmos em consideração as ações destes cristãos tão certos de si e de sua fé e tão cheios de medo e rancor, Jesus não lhes ama os próprios parentes, os vizinhos, os antepassados ou os que ainda estão por vir, pois não ama ninguém que discorde da visão estrita do que seja amor. Um amor questionável, que mais mata do que salva. Que mais condena do que fortalece e acarinha. Mais uma vez, fazendo jus à caminhada dos povos brancos-cristãos ao longo dos séculos. A bíblia como espada, baioneta, tiro e forca.

Não era amor nas palavras daquela mulher. E mesmo se fosse, eu rejeitaria. Um amor desse não difere de grilhão e de chibata, e destes castigos punitivos eu já nasci farto.

Por Tago Elewa Dahoma, 15/07/2018…

Conservador ou Progressista?

Eu penso muito num período pós-apocalíptico. Daqueles que a humanidade se perde e vivemos o caos humanitário, num senso de humanidade perdida que só permite a barbárie. Os filmes e estas mudanças tão profundas dão esta sensação de escape, de tentar “segurar” a água com as próprias mãos.

Mas pensando em termos de povo preto, nós vivemos uma era apocalíptica há pelo menos 1.300 anos, com a escravização promovida pelos árabes aos povos africanos do Sahel e logo após, tivemos o seu ponto crítico com o início do comércio europeu e a intensificação do tráfico transatlântico. Os efeitos se puderam sentir nas duas pontas do Atlântico, com desarticulações societárias profundas e perda de capital humano sem paralelos na escala da humanidade.

O nosso mundo está despedaçado há mais de um milênio e estamos vivendo as consequências desse descalabro.

Portanto, a atribuição de conservador ou progressista (nomenclaturas políticas) às pessoas pretas me soa estranha ou algo fora de sua ordem, já que ambas as nomeações condizem e se baseiam num tempo de vivência catastrófica ao povo africano. Quando dizemos conservador, a qual tempo nos referimos? Se conservar quais valores e práticas? Localizando no contexto temporal, aonde estávamos quando se passou a querer conservar o status quo? O mesmo vale pro progresso, progressista. Uma palavra que condiz uma ideia mutável, utilizada por variados matizes do espectro político do passado e atual. Progredir de onde, sob quais bases?

Estar no mundo é dialogar e analisar com o que está posto, sem necessariamente tomar pra si o que tá colocado na mesa. Principalmente se não nos comporta.

Acredito que temos sim algo a conservar e o que progredir, mas que o que deveria nos mover não é visto como bandeira política por quem faz política. Porque a humanidade baseada nos princípios africanos de mundo é ainda vista como um “olhar que não abraça a complexificação da sociedade atual”, o que equivale dizer que as percepções africanas são primitivas, logo, não cabíveis.

Acho que devemos sim ser conservadores e progressistas, mas de uma base cultural e filosófica que não precise reafirmar a nossa humanidade, pois nela, nunca perdemos este status. Há fragmentos desta humanidade em solo brasileiro, nas expressões culturais e religiosas negro-africanas, mas devemos ir além.  Acho que a missão é realmente de resgate, de restaurar bases africano-filosóficas em nossas práticas e ter tais pontos como elementos-guia. Ir além dos parâmetros temporais que nos encaixam e nos rotulam, para escaparmos das armadilhas mentais que não alteram o mundo apocalíptico que ainda estamos vivendo.

Não se achar – ou não caber – nos pólos majoritários não é motivo de desorientação; ao contrário, é se enxergar numa lógica que transcende a pequenez do tabuleiro já que o componente que lhe é mais vital – a sua vida, seu povo – tem importância minimizada quando não é desimportante por quem movimenta as peças.

Centrar-se em Áfrika é o resgate de uma humanidade que nunca perdemos, mas que sempre nos foi negada nas lógicas que orientaram e orientam o brasil.
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Obs: Apesar de no texto não ter citações, esse texto teve influências da obra “Racismo e Sociedade”, do agba Carlos Moore.