“Jesus te ama viu, moço?”

O que mais falta nessa fala é amor. É ódio travestido de preocupação. As vestes brancas numa noite bonita, a alma ainda leve ao sair do candomblé, feliz pelo (re)nascimento de um amigo muito querido. Ao fim da ladeira, três mulheres, das quais consegui observar apenas duas. A terceira, como me pregando uma peça, diz a dita frase. “Jesus te ama viu, moço?”.

A minha resposta ao que foi enunciado não importa. A raiva e a dor já estava instalada pela violência cometida. Dói porque traz em si a perversidade do racismo brasileiro, quando quer atingir fingindo inocência. Quem escuta sem ser do axé não vê nada demais, até diria que foi um gesto fraterno; para mim, foi o gatilho emocional que acessou um campo enorme de informações e sentimentos mistos: a armadilha cristã em Áfrika, ao dizer que as divindades cultuadas no Continente-Mãe são o mal e pela necessidade da salvação na renúncia da fé dos pais e avós; a subserviência a um tipo de “amor” e relação com o sagrado que não me contempla, mas que na mente destes cristãos, me serviria; a total ojeriza à minha manifestação de fé, traduzido em minhas vestes brancas, motivo para a frase dessa “cristã”.

O racismo tem dessas artimanhas irracionais. Tarde da noite, um homem negro na rua. Geralmente, o medo seria o normal, o atravessar de calçada, se afastando do “perigo”. No entanto, o ódio às insígnias afrikanas que eu carregava deu impulso para ação, para atacar, de maneira sutil: como um conselho, como um chamado, como um alerta. Uma fala entremeada por medo, quase se escondendo, mas ainda assim, feita sem maiores pudores. É uma noção de auto-importância descabida, como se eu fosse um jarro com água impura, das qual eles querem trocar por líquido límpido. A única água realmente pura é a que eles dizem ter, mesmo que a minha me sacie.

“Jesus te ama” é uma maneira aparentemente inocente de dizer que não importa sua fé, se ela te dá suporte emocional e espiritual, se te permite o auto-conhecimento, se fortalece teus elos comunitários, aprofunda seus conhecimentos sobre a humanidade e sobre o Divino, nada disso importa. A fala é apenas a ponta de um iceberg profundo que visto em toda a sua magnitude, permite apedrejamentos, discriminação dos mais diversos níveis, invasão e queima de terreiros e no seu ponto mais crítico, assassinatos. A base conceitual, filosófica e religiosa é a que valida todas essas ações doentias. Auto-centrada e invasiva, incapaz de conviver com o Outro, porém prontamente mais mordaz  e persistente quando este Outro é a representação da fé e espiritualidade afrikanas em corpos pretos.

A pergunta que cabe é como eu posso ser tolerante com este tipo de atitude? Como levar na esportiva algo que é feito pra me ferir? Seria responder “Exu também te ama”? Mas não tem como eu misturar Exu como resposta ao ódio que senti por aquela moça. Eu amo Pai Exu, provavelmente mais do que aquela moça deve amar Jesus, já que não utilizo o meu sagrado como laço de gado ou truque aos outros. O meu sagrado não é rede de pesca jogada a esmo pra catar nada nem ninguém.

As nossas divindades dançam, comungam conosco, se alegram, se fartam e se emocionam em nossa presença. Sentimos seu afago, seu toque e a vibração de sua presença por intermédio de seus descendentes em terra. Isto certamente abala as certezas de quem não sabe ver Deus em manifestações tão vivas, que só lhes faz sentido associar o que não compreendem ao mal pra lhes dar segurança da própria crença, da propria fé. O cristianismo destas pessoas é oco, pois permeado por medo e receio da vivacidade do que o universo afrikano evoca e produz.

Não acredito em credos tão vazios, que só se sentem completos e seguros quando ocupam sozinhos o coração e mente das pessoas. Tampouco acredito em um céu ou em um deus que prefira a minha infelicidade ao ter de cultuar algo que nada diz sobre a minha história e a história dos meus ancestrais. Um deus a fórceps sobre a bandeira do amor. Nada mais condizente com a trajetória deste cristianismo belicoso, com seus milhões de vítimas espalhados pelo globo.

Não sei a quem Jesus ama. Se o dito na bíblia ou dito pelas bocas de tantos hipócritas .Se levarmos em consideração as ações destes cristãos tão certos de si e de sua fé e tão cheios de medo e rancor, Jesus não lhes ama os próprios parentes, os vizinhos, os antepassados ou os que ainda estão por vir, pois não ama ninguém que discorde da visão estrita do que seja amor. Um amor questionável, que mais mata do que salva. Que mais condena do que fortalece e acarinha. Mais uma vez, fazendo jus à caminhada dos povos brancos-cristãos ao longo dos séculos. A bíblia como espada, baioneta, tiro e forca.

Não era amor nas palavras daquela mulher. E mesmo se fosse, eu rejeitaria. Um amor desse não difere de grilhão e de chibata, e destes castigos punitivos eu já nasci farto.

Por Tago Elewa Dahoma, 15/07/2018…

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A musicalidade preta e a sua representação audiovisual

Ver um gênero puramente preto ser tomado pela indústria é ver a transformação em direção ao embranquecimento em diversas etapas: a primeira é a mais fácil, pois se transforma os ídolos/musas. Como boa parte das expressões são feitas por homens, as mulheres símbolo do afeto carinhoso tornam-se brancas, fortalecendo a mulher branca como o ideal de feminilidade, a parceira ideal.. É simplesmente a continuação de um racismo secular (no caso brasileiro), agora nas novas mídias.

segundo passo é tornarem brancos os emissores do gênero: basta vermos como no final dos anos 1990, houve tentativas com o pagode paulista, com o pagodão baiano e mais atualmente, com o cenário do rap e do funk. No caso dos dois últimos, os expoentes – ou pelo menos os que lucram mais – não são pretos.

A música passa por várias transformações, as quando vamos ao visual, à “encarnação” dos sentimentos, dos desejos e vontades, há uma capa branca, um invólucro, sobre um conteúdo fundamentalmente preto.

Como o som tem origem, mas não tem rosto, a possibilidade de moldar as nossas percepções em direção ao padrão brancóide é uma máxima na sociedade brasileira.

A musicalidade e letras como manifestações de nosso desejo e sonhos foi e continua sendo capturado, rumo ao áureo e o cândido.

Ainda os figurantes de si mesmos, mesmo que superficialmente protagonistas nas telas e clipes.

Ditadura e memória seletiva

Fala-se de história, que “esquecemos” o que foi a ditadura no Brasil, que foi um período sombrio e violento, com os diretos políticos e civis negados, com muito sofrimento ao povo. A pergunta que deveria ser feita é: quem de fato sofreu?

A percepção daqueles que viveram a ditadura não é homogênea, com muitas pessoas falando bem da ditadura por conta da sensação de segurança,crescimento econômico e outras situações mantidas pela informação sob controle estrito. Os processos sobre censuras, castigos físicos e assassinatos não tiveram a cobertura devida na época, o que aumenta a sensação de bem estar nas pessoas que não sofreram nada no período, ricos e pobres.

Não importam muito as monstruosidades cometidas, a memoria afetiva e seletiva de muitos não está associado ao que foi investigado e mostrado depois, já no período democrático. Sua memória está relacionada à informação circulante na época, e à sensação sentida.

Podemos presumir os que efetivamente sofreram: pretos com cabelos raspados, com necessidade de andar com a carteira de trabalho para provar que eram trabalhadores e não “vadios”; índios, já que eram considerados um estorvo ao nacional-desenvolvimentismo; e às pessoas (brancas e negras) ligadas à esquerda que permaneceram no país e combateram o regime, sendo presos e mortos.

Como podemos ver, sobra uma massa social intocada, efetivamente apoiante e apoiada do regime militar. Que não tem motivos para se queixar da ditadura, pois como na democracia, são os principais beneficiários do status quo nacional.

Podemos taxá-los de burros, mas não vejo incoerência na movimentação da classe média e alta à favor dos militares. O centro do poder continua na mesma mão.

Uma nostalgia à la Trump: “vamos fazer o brasil grande de novo”, quando na verdade a grandeza do país está em ser carrasco de si, dos povos melaninados.

Burrice está em convencer o grande monolítico branco ceder ou aceitar perda de poder/influência.. Afundam o barco mas não cedem o convés.

Ódio, necropolítica e Tea Party tupiniquim: a receita eleitoral para 2018

                A opinião do recém-empossado governador de São Paulo, Márcio França sobre a polícia e sua ação sobre o episodio da PM que reagiu a uma tentativa de assalto matando o sujeito, me lembrou de um texto escrito em 2015, já com os sinais da grave crise política e de uma radicalização do ódio em forma político-eleitorais nos discursos e ações dos postulantes a cargos na política nacional.

               Impressionante como estamos parecidos com os Estados Unidos. Há alguns anos, uma parcela do eleitorado americano não se sentia representada pelos partidos, pelas representações formais, e passaram a se movimentar, de maneira difusa pra influir nos rumos da política americana. Esse movimento foi chamado de Tea Party. Irrompeu de tal forma pros lados de lá que forçou o pêndulo pra posições mais conservadoras dos partidos principais. Perderam força, mas deixaram um rastro de retrocesso político em sua passagem retumbante.

           Vivemos um momento muito parecido. Jair Bolsonaro é a nossa Sarah Palin. Ambos estúpidos, cristãos politiqueiros, mas com maior risco por estas bandas: a visibilidade que o Bolsonaro tem tido, o coloca como um presidenciável com chances. E dado o clima de medo/ódio ao qual estamos vivendo, ele parece muito como um novo Collor, pra salvar as classes médias e pobres iludidas dos “perigos” morais e sociais que estes tempos tem proporcionado a frágil sanidade e intenso bombardeio midiático destes estratos sociais.

               Estamos a um passo de um “Tea Party” brasileiro. O ódio irrompeu e contaminou o ambiente político, mais afeito à hipocrisia e demagogia, mas sem arroubos. Vemos hoje a aglutinação de um espectro político sem rosto, no qual erradamente colocamos o PSDB como cabeça. O PSDB está tentando capitalizar essa força política sem pai nem mãe, mas não apenas o PSDB. Vemos este discurso se espraiar por outras siglas, que apesar do fisiologismo brasileiro, tiveram pautas mais populares como o PDT e o PSB. A busca por votos tem exacerbado a retórica belicista dos partidos e tem se seguido o mesmo script já formulado, com as mesmas falsas soluções já conhecidas.

             Esse grupo, que se enxerga nos Bolsonaros e Felicianos da vida, já demonstrou sua força ao puxar o pendor político para um espectro mais doentio, visceral no ódio, no qual tudo é permitido para que as regras se modifiquem ao sabor de suas paixões e vontades.

           No meu entender, isso não é o problema maior. A elite branca no Brasil e no mundo sempre mudaram as regras quando viam que tinham riscos de perder privilégios. A História está cheia destes pontilhados. Mas o que surpreende é a adesão dos mais pobres. Uma disposição anti-política ativa, num endosso preocupante raiva canina da elite. Hoje o Tea Party tupiniquim comunga de pobres da quebrada, daquele que acorda as 5 da manhã, o gladiador do altar da Universal e o rentista que num sabe o que é calo na mão.

             Apesar de várias quebradas não terem feito panelaço, o panelaço mental tem sido imputado pela mídia. Tão levantando uma lebre que depois num vão aguentar o repuxo, e pior vai ser pros de sempre: pros pretos. Esse clima de ódio político não tá dissociado dos eventos sociais aos quais temos passado. Fiquemos ligeiros.

Edit: Matéria com o posicionamento do governador.

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/05/quem-ofender-a-policia-militar-corre-risco-de-vida-em-sp-diz-governador.shtml

Conservador ou Progressista?

Eu penso muito num período pós-apocalíptico. Daqueles que a humanidade se perde e vivemos o caos humanitário, num senso de humanidade perdida que só permite a barbárie. Os filmes e estas mudanças tão profundas dão esta sensação de escape, de tentar “segurar” a água com as próprias mãos.

Mas pensando em termos de povo preto, nós vivemos uma era apocalíptica há pelo menos 1.300 anos, com a escravização promovida pelos árabes aos povos africanos do Sahel e logo após, tivemos o seu ponto crítico com o início do comércio europeu e a intensificação do tráfico transatlântico. Os efeitos se puderam sentir nas duas pontas do Atlântico, com desarticulações societárias profundas e perda de capital humano sem paralelos na escala da humanidade.

O nosso mundo está despedaçado há mais de um milênio e estamos vivendo as consequências desse descalabro.

Portanto, a atribuição de conservador ou progressista (nomenclaturas políticas) às pessoas pretas me soa estranha ou algo fora de sua ordem, já que ambas as nomeações condizem e se baseiam num tempo de vivência catastrófica ao povo africano. Quando dizemos conservador, a qual tempo nos referimos? Se conservar quais valores e práticas? Localizando no contexto temporal, aonde estávamos quando se passou a querer conservar o status quo? O mesmo vale pro progresso, progressista. Uma palavra que condiz uma ideia mutável, utilizada por variados matizes do espectro político do passado e atual. Progredir de onde, sob quais bases?

Estar no mundo é dialogar e analisar com o que está posto, sem necessariamente tomar pra si o que tá colocado na mesa. Principalmente se não nos comporta.

Acredito que temos sim algo a conservar e o que progredir, mas que o que deveria nos mover não é visto como bandeira política por quem faz política. Porque a humanidade baseada nos princípios africanos de mundo é ainda vista como um “olhar que não abraça a complexificação da sociedade atual”, o que equivale dizer que as percepções africanas são primitivas, logo, não cabíveis.

Acho que devemos sim ser conservadores e progressistas, mas de uma base cultural e filosófica que não precise reafirmar a nossa humanidade, pois nela, nunca perdemos este status. Há fragmentos desta humanidade em solo brasileiro, nas expressões culturais e religiosas negro-africanas, mas devemos ir além.  Acho que a missão é realmente de resgate, de restaurar bases africano-filosóficas em nossas práticas e ter tais pontos como elementos-guia. Ir além dos parâmetros temporais que nos encaixam e nos rotulam, para escaparmos das armadilhas mentais que não alteram o mundo apocalíptico que ainda estamos vivendo.

Não se achar – ou não caber – nos pólos majoritários não é motivo de desorientação; ao contrário, é se enxergar numa lógica que transcende a pequenez do tabuleiro já que o componente que lhe é mais vital – a sua vida, seu povo – tem importância minimizada quando não é desimportante por quem movimenta as peças.

Centrar-se em Áfrika é o resgate de uma humanidade que nunca perdemos, mas que sempre nos foi negada nas lógicas que orientaram e orientam o brasil.
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Obs: Apesar de no texto não ter citações, esse texto teve influências da obra “Racismo e Sociedade”, do agba Carlos Moore.

“Viajar é preciso”

Tem umas músicas que me dão uma brisa.. Me fazem viajar por lugares que eu nunca pisei, uma vida que nunca vivi. Fico cá pensando como era bom ser andarilho em outros tempos, resolver conhecer o mundo e outras culturas, tendo fé no outro, porque este outro era acolhedor, porque o visitante era uma benção. Quantos dos nossos antepassados devem ter conhecido e se maravilhado com outras paisagens e pessoas, simplesmente se permitindo ir, sem cortar laços com família, com sua comunidade, mas sem tempo pra voltar, e quando retornasse, seria acolhido como um bom filho.

Essa vontade – que creio estar na maioria das pessoas – foi “colonizada” nos tempos atuais. O que queremos é ir pros lugares cobiçados, pros destinos turísticos com toda a sua teia de mesmices e badulaques. Nossa liberdade de vagar foi cerceada e distorcida. Quem tem confiança pra ir pra algum lugar e confiar no outro, sem contato prévio, sem insígnias que demonstrem uma pertença, alguma identidade? Como a nossa inerente vontade de se sentir livre, de andar e caminhar promovem lucro. E estes que lucram, não tem as barreiras que nos impõe. Nos impõe as barreiras burocráticas, do medo e financeira. Quando estas barreiras são rompidas, nos oferecem uma dúzia de “destinos” e nos dizem que nisto se resume o mundo.

Os mais pertos que temos desses livres são os hippies, mas olha como são vistos. Pagam um preço caro por não permitirem que essa dita vontade de cair no mundo não seja uma presa tão simples: taxados de ladrões, mendigos e toda sorte de comparações. Deter tal liberdade deve ter o mesmo significado que ser um fora da lei, ou nas palavras de hoje, um marginal.

Ouvir certas músicas me dão uma brisa. De querer que a terra, como no Continente-Mãe em outros tempos, não fosse propriedade alheia, mas um bem divino emprestado aos que nela habitam e aos que nela passam. Que possamos desfrutar mais do mundo, não só pelas músicas e outros referenciais do sentido, mas pelo caminhar..

 

Estrela(s) cadente(s)

Estrela(s) cadente(s),

Noite de tão intenso negrume,

Onde o andar vagueia por caminhos agrestes,

Mas de tal calmaria,

Onde as almas se tornam humanas

Na expectativa dos medos comuns.

Vento que se faz nosso, que nos aguça os sentidos,

No cheiro do lago que traz,

No farfalhar das palmeiras, no contato com a pele seca.

Noite de tão intenso viver,

No qual as estrelas se fazem guias,

Despertas como nunca, em união ao breu.

Escuridão que acalanta, ao posar os olhos no céu.

E vê-los tão interessados em minha existência,

Em meus sentimentos, sorriso e paz.

Nesta noite que se fez minha, que me fez outro

Senti, à relva, o gozo e no limiar, a estrela cadente..

Cadente que cadenciou.. Gozo que se fez antegozo,

Clímax de véspera. Raro momento com duração de intensos orgasmos.

Ainda assim: duplicado. Lindo corte a passar pelo céu,

Como um rabisco feito de brilho.

De olhos abertos, peito arquejante e jóia do Infinito.

Feliz. Completo. Vivo. Em transbordo sentimental. Meu. Único.

Por: Tago Elewa Dahoma.

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