Conservador ou Progressista?

Eu penso muito num período pós-apocalíptico. Daqueles que a humanidade se perde e vivemos o caos humanitário, num senso de humanidade perdida que só permite a barbárie. Os filmes e estas mudanças tão profundas dão esta sensação de escape, de tentar “segurar” a água com as próprias mãos.

Mas pensando em termos de povo preto, nós vivemos uma era apocalíptica há pelo menos 1.300 anos, com a escravização promovida pelos árabes aos povos africanos do Sahel e logo após, tivemos o seu ponto crítico com o início do comércio europeu e a intensificação do tráfico transatlântico. Os efeitos se puderam sentir nas duas pontas do Atlântico, com desarticulações societárias profundas e perda de capital humano sem paralelos na escala da humanidade.

O nosso mundo está despedaçado há mais de um milênio e estamos vivendo as consequências desse descalabro.

Portanto, a atribuição de conservador ou progressista (nomenclaturas políticas) às pessoas pretas me soa estranha ou algo fora de sua ordem, já que ambas as nomeações condizem e se baseiam num tempo de vivência catastrófica ao povo africano. Quando dizemos conservador, a qual tempo nos referimos? Se conservar quais valores e práticas? Localizando no contexto temporal, aonde estávamos quando se passou a querer conservar o status quo? O mesmo vale pro progresso, progressista. Uma palavra que condiz uma ideia mutável, utilizada por variados matizes do espectro político do passado e atual. Progredir de onde, sob quais bases?

Estar no mundo é dialogar e analisar com o que está posto, sem necessariamente tomar pra si o que tá colocado na mesa. Principalmente se não nos comporta.

Acredito que temos sim algo a conservar e o que progredir, mas que o que deveria nos mover não é visto como bandeira política por quem faz política. Porque a humanidade baseada nos princípios africanos de mundo é ainda vista como um “olhar que não abraça a complexificação da sociedade atual”, o que equivale dizer que as percepções africanas são primitivas, logo, não cabíveis.

Acho que devemos sim ser conservadores e progressistas, mas de uma base cultural e filosófica que não precise reafirmar a nossa humanidade, pois nela, nunca perdemos este status. Há fragmentos desta humanidade em solo brasileiro, nas expressões culturais e religiosas negro-africanas, mas devemos ir além.  Acho que a missão é realmente de resgate, de restaurar bases africano-filosóficas em nossas práticas e ter tais pontos como elementos-guia. Ir além dos parâmetros temporais que nos encaixam e nos rotulam, para escaparmos das armadilhas mentais que não alteram o mundo apocalíptico que ainda estamos vivendo.

Não se achar – ou não caber – nos pólos majoritários não é motivo de desorientação; ao contrário, é se enxergar numa lógica que transcende a pequenez do tabuleiro já que o componente que lhe é mais vital – a sua vida, seu povo – tem importância minimizada quando não é desimportante por quem movimenta as peças.

Centrar-se em Áfrika é o resgate de uma humanidade que nunca perdemos, mas que sempre nos foi negada nas lógicas que orientaram e orientam o brasil.
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Obs: Apesar de no texto não ter citações, esse texto teve influências da obra “Racismo e Sociedade”, do agba Carlos Moore.
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“Viajar é preciso”

Tem umas músicas que me dão uma brisa.. Me fazem viajar por lugares que eu nunca pisei, uma vida que nunca vivi. Fico cá pensando como era bom ser andarilho em outros tempos, resolver conhecer o mundo e outras culturas, tendo fé no outro, porque este outro era acolhedor, porque o visitante era uma benção. Quantos dos nossos antepassados devem ter conhecido e se maravilhado com outras paisagens e pessoas, simplesmente se permitindo ir, sem cortar laços com família, com sua comunidade, mas sem tempo pra voltar, e quando retornasse, seria acolhido como um bom filho.

Essa vontade – que creio estar na maioria das pessoas – foi “colonizada” nos tempos atuais. O que queremos é ir pros lugares cobiçados, pros destinos turísticos com toda a sua teia de mesmices e badulaques. Nossa liberdade de vagar foi cerceada e distorcida. Quem tem confiança pra ir pra algum lugar e confiar no outro, sem contato prévio, sem insígnias que demonstrem uma pertença, alguma identidade? Como a nossa inerente vontade de se sentir livre, de andar e caminhar promovem lucro. E estes que lucram, não tem as barreiras que nos impõe. Nos impõe as barreiras burocráticas, do medo e financeira. Quando estas barreiras são rompidas, nos oferecem uma dúzia de “destinos” e nos dizem que nisto se resume o mundo.

Os mais pertos que temos desses livres são os hippies, mas olha como são vistos. Pagam um preço caro por não permitirem que essa dita vontade de cair no mundo não seja uma presa tão simples: taxados de ladrões, mendigos e toda sorte de comparações. Deter tal liberdade deve ter o mesmo significado que ser um fora da lei, ou nas palavras de hoje, um marginal.

Ouvir certas músicas me dão uma brisa. De querer que a terra, como no Continente-Mãe em outros tempos, não fosse propriedade alheia, mas um bem divino emprestado aos que nela habitam e aos que nela passam. Que possamos desfrutar mais do mundo, não só pelas músicas e outros referenciais do sentido, mas pelo caminhar..

 

Estrela(s) cadente(s)

Estrela(s) cadente(s),

Noite de tão intenso negrume,

Onde o andar vagueia por caminhos agrestes,

Mas de tal calmaria,

Onde as almas se tornam humanas

Na expectativa dos medos comuns.

Vento que se faz nosso, que nos aguça os sentidos,

No cheiro do lago que traz,

No farfalhar das palmeiras, no contato com a pele seca.

Noite de tão intenso viver,

No qual as estrelas se fazem guias,

Despertas como nunca, em união ao breu.

Escuridão que acalanta, ao posar os olhos no céu.

E vê-los tão interessados em minha existência,

Em meus sentimentos, sorriso e paz.

Nesta noite que se fez minha, que me fez outro

Senti, à relva, o gozo e no limiar, a estrela cadente..

Cadente que cadenciou.. Gozo que se fez antegozo,

Clímax de véspera. Raro momento com duração de intensos orgasmos.

Ainda assim: duplicado. Lindo corte a passar pelo céu,

Como um rabisco feito de brilho.

De olhos abertos, peito arquejante e jóia do Infinito.

Feliz. Completo. Vivo. Em transbordo sentimental. Meu. Único.

Por: Tago Elewa Dahoma.

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As balas enquanto a política do (não) diálogo

Por: Tago E. Dahoma

Eu to querendo saber em que país se pacificou uma situação de ódio sem ser por conflito armado. Em quais lugares uma clivagem tão forte foi amansada em uma união pelo jogo democrático, nas urnas, sem antes haver o choque armado. Uma dúvida real e que parece estar cada vez mais presente no horizonte político nacional.

O erro continua. Dilma após a eleição em 2014, quis fazer um conluio (não dá pra chamar de outra coisa) com as mesmas pessoas que lhe quiseram a cabeça com uma maçã na boca, no ideal romantizado da escolha da maioria como elemento pacificador das profundas divisões existentes na sociedade brasileira e que ficaram patentes em pólos político-partidários.

Lula foi alvejado, axincalhado, e tem a própria liberdade em risco. E fala em respeito à democracia. Eu, ouvindo o ex-presidente, quase acreditaria que a situação institucional desse pardieiro estivesse prestes a se normalizar, já que a democracia está em vigor. De que raios ele fala? Quais os códigos estão em atuação no atual momento?

Entendo: A casa em chamas e o olhar nas colheitas primaveris. Como se a eleição fosse um jogo no qual o derrotado acataria o resultado após o investimento político e econômico que reduziu o país a um lugar pequeno, ao qual sempre esteve acotumado no tabuleiro mundial. Como se do Planalto viria o magistral plano de desmobilização de uma direita rançosa, vingativa e com ódio viperino da esquerda e de suas representações, mesmo que falsas. Escuto os espantos, as manifestações de respeito às instituições, e me choca como parece que o que aconteceu ao Lula fosse rio brotado em deserto seco. Assim como o que fizeram a Marielle.

Os pretos continuam a pagar o preço por todos os erros e acertos. Morremos a rodo na bonança, e continuamos a morrer no caos. As balas hoje nos nossos corpos são os desdobramento de um histórico calcado na resolução dos conflitos pela violência, pela ótica da desvalorização da vida. Por mais democrático que o país tenha se sentido, esta capa violenta sempre esteve presente, se fazendo de “pacificador” nos acertos e desacertos.
No fundo, esperança no quê de fato? Se for nas perspectivas políticas que tem se apresentado como solução do atual momento, uma “esperança desesperançada” toma forma, como esperar a água cair de uma jarra vazia. A solução me parece vir na fé em nós mesmos, por mais anti-tudo que isto possa parecer.

Realmente me incomoda estarmos a mercê das jogadas, das negociações de bastidores, dos conluios, das bravatas palanqueiras, da comoção seletiva, das desonras em morte.

Talvez o que pacifique seja o conflito. Que seja um conflito deles. Aberto, para quem sabe o horror trazido às casas e vidas dos distintos mostre-lhes a insensatez dos presentes atos e das ações que tem sido cometidas “aos fora do pleito”, de tez escura que sempre são o objeto dos discursos e argumentações, sejam por motivos “nobres” ou de justiciamento,  baseados nas ações sem real dotação, com pouco empenho real na resolução dos problemas que acometem-nos.

Que nos deixem de fora, já que sem conflito, mas com massacre, chacina, o brasil é mestre.

Se massacre pacificasse, o brasil seria o melhor lugar do mundo pra se viver.

Obs:
Notícias sobre os tiros a Lula: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43578246

 

A verdade num mundo de “fake news”

O que aconteceu com a veiculação mentirosa sobre o passado de Marielle Franco, vereadora do PSOL-RJ assassinada no dia 15 de março, e a proporção que isto tomou (dentre tantos a repercutir a falsa notícia,  a desembargadora do Tribunal de Justiça do RJ, Marília Castro Neves foi uma), nos mostra que há um aprofundamento da guerra sobre informação. Antes via de mão única, transmitida pelos jornais e meios tradicionais de comunicação, hoje a informação tem diversas pontas e lados, o que produz uma teia irreal sobre fatos e acontecimentos, sobre histórias.
Entenda, diversos discursos sobre uma informação não produz verdade. Atualmente, a verdade é uma incoveniência que pode muito bem ser omitida ou atropelada pela fabricação do fato, da história.
As “fake news” nos colocam num outro patamar de veiculação da informação, dada a facilidade de sua dispersão, aliada à intenção real de produzir factóides ou destruir biografias. Por isso, a minha pergunta insistente sobre qual a sua fonte de informação, de contato com as notícias me parece importante. Quem se fia apenas nas redes virtuais, me parece ainda mais preso numa lógica que recebe a informação e não desconfia, não checa.

As fake news (notícias falsas) adensam o movimento de ressonância acrítica, no estilo fofoca. Como pegar no ar o som que ecoa? O rastreio permite chegar nos pólos difusores, mas realmente impactam na redução  das falsas informações?

Essa lógica acaba sendo muito mais perniciosa e perigosa às pessoas pretas, dado o imaginário racista que permeia insistentemente a sociedade brasileira. Pelo fato de ser uma pessoa oriunda da favela da Maré e atuar politicamente em favor da comunidade nos assuntos que lhe cabem (violação dos direitos humanos, abuso  e violência policial) foi o estopim para a fabricação de mentiras a respeito da Marielle Franco. A avalanche de críticas à possível participação de forças do Estado na sua morte ensejou uma força contrária, reacionária, com o intuito de manchar sua biografia e produzir dúvidas sobre seus vínculos e a partir disto, produzir outros cenários possíveis para o seu assassinato, fortalecendo a tese do crime (des)organizado como principal executor da ação. Por mais que hajam elementos que indiquem outras motivações para o trágico desfecho, são enxergados como algo irrelevante. Este é o efeito máximo da total desconsideração das evidências, mostrando-nos que a fabricação de fatos é uma verdade incontestável na nossa realidade atual.

Mas isto não se restringe apenas a ela. É comum vermos a veiculação de informações de pessoas pretas como bandidas, como estupradores e assassinos, sem o mínimo fundamento na realidade. O estrago que faz na vida destas pessoas é real, com várias perdendo o trabalho, e em alguns casos, pessoas sendo linchadas até a morte por notícias falsas. A correia de falsas informações não compreende e não quer compreender a lógica do contraditório, da presunção de inocência, e geralmente acessa o conjunto de valores mais viscerais das pessoas. Quando direcionados às pessoas pretas, acrescenta-se o ódio, componente fundamental da estrutura das relações raciais neste território.

A mídia sempre foi um lugar de fabricação de verdades, ou melhor dizendo, inverdades. Mas havia o lugar mínimo da cobrança. Hoje, isto se dificultou ainda mais já que há uma cacofonia na qual não sabemos o que ouvimos, ou apenas ouvimos as “verdades” que nos interessam, baseadas em nossos sentimentos emuitas vezes, ódios arraigados.
O fato é uma verdade. Mas a verdade do fato é sempre uma criação. Nisto, percebemos um afrouxamento dos critérios éticos nessa fabricação.
A Guerra pela Informação sempre foi tensa, pois informação é uma das conotações de poder, sobretudo pra quem controla o acesso e distribui a informação. Hoje, esta guerra  está encarniçada, sangrenta e sem regra alguma.
O provérbio das verdades (“Há a minha verdade, a sua verdade e a Verdade”) foi morto pelos tempos acríticos. A Verdade é universal, mas se encontra presa debaixo desses escombros. Cabe nos pergntar quanto tempo podemos perdurar enquanto ela estiver trancafiada lá.

1.. A dinâmica que movimenta..

Este é o primeiro post deste blog, ainda em desenvolvimento. Apesar das minhas tantas dificuldades em lidar com as ferramentas tecnológicas, creio que o incômodo deve ser mais uma ferramenta de melhorias do que um motivo para empacar. Levei um bom tempo para entender isto, o que com certeza será palco de alguns escritos nesse novo espaço.

Este espaço me será importante para poder de fato não apenas recuperar alguns escritos que fiz nestes anos, mas pensar outras coisas, inquietações e reflexões que me cruzam nestas eras de mudanças tão pungentes. Que este blog me sirva a este propósito, em conjunto com quem o ler.

Que as provocações sejam em benefício mútuo, de novos alcances e de mais questionamentos, pois creio que a pergunta é o elemento mais dinâmico da nossa linguagem; é o que nos tira do conforto e nos ajuda a expandir nossas percepções. Tudo isto, quando buscamos responder, mesmo sem saber ao certo a resposta.

Que esta força dinâmica, simbolizada por Esù (a esfera) me (nos) seja guia nesse meu novo caminhar.

Axé!