Manifestar o Divino..

Me impressiona como é comum no credo cristão a menção a D’us e na sua proximidade das querelas humanas. Me impressiona o caráter demasiadamente humano em suas formas, modos de agir e punir os erros, e de recompensar os acertos. Aplica-se valores morais à Força que criou do àtomo às supernovas..

Gosto das perspectivas africanas de Divino, pois elas nos interligam a todos, fazendo de D’us uma conexão entre tudo. Portanto, falar de D’us como uma Particularidade faz pouco sentido, pois por estar ligado à Tudo, liga-se ao que não entendemos e compreendemos, logo, não se gasta tempo e energia no entendimento de Sua lógica.

Não quero entender D’us. Quero manifestar Sua Potência como Parte que nos liga.

Lembro de Chinua Achebe falando sobre esta Força Criadora no “Mundo em Despedaço”. Um personagem bem interessante, amigo de Ojukwo, personagem principal. Falando mais ou menos que “Deus é muito grande, melhor se relacionar com seus ajudantes”…

Não poderia concordar mais..

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 18 de dezembro de 2018.

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Homens Pretos como pais/maridos nas propagandas: uma ausência calculada

As propagandas (aqui diferencio de comercial, já que o foco está mais nos signos do que no produto a ser comercializado) natalinas veiculados nas redes de televisão dizem muito qual o papel das famílias negras no conjunto do que é entendido como família: nulo.
 

Há vários outros arranjos com mulheres negras/pretas sorridentes com seus/suas pares, sejam com homens e mulheres brancas, ou até mesmo sozinhas, mas uma coisa muito significativa é a quase ausência do homem preto como pai/marido. Todas as outras alternativas referentes às mulheres negras estão sendo muito bem exploradas.

O reciclar das teses racistas em forma de imagem, mas de uma maneira bem sagaz: pela ausência. Ao invisibilizar os homens pretos nas representações que evocam responsabilidade com seu núcleo social, reafirmam a pecha de irresponsáveis, tão firmemente coladas aos homens pretos.

 

Quando este Homem Preto aparece, tem sido cada vez mais díficil vê-lo acompanhado de uma Mulher Preta, indicando que este arranjo familiar não é preferível ante todas as outras. Isto não é um “desleixo” ou um “descuido” dos publicitários.  Tem-se que parar de pensar na ingenuidade destes formuladores do pensamento de massa, e ver que a destruição das população negra (logo, das famílias pretas) foi um alvo explícito das políticas eugenistas no Brasil, e que tem sido, mas de uma maneira muito mais insidiosa, via uma perspectiva da democracia racial repaginada.

A reflexão que fica é a seguinte: cabe exigir representação em propagandas que visam extinguir uma das formas de expressão da família preta? Cabe reclamar pedindo alterações?
 
É preciso que decidamos quais os tipos de influência que queremos estar submetidos. Queremos ser tocados ou impelidos a consumir produtos de quem pensa em nossa supressão? Queremos pedidos de desculpas por eles se mostrarem como realmente são? Se queremos ser influenciados por quem, de uma maneira bem sutil, manda o recado de quais os tipos de famílias são válidas, e qual não é.
 

Se bebemos do poço envenenado, de nada adianta reclamar com o poço dos efeitos em nosso corpo e saúde, é preciso trocar a fonte.

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 13 de dezembro de 2018.

O choro é a solução? Das sensibilidades em meio ao terror..

Se diz aos Homens Pretos: chorem mais, se abram..
 
Aì eu penso como é que dá pra fazer isto num contexto de guerra, ou melhor de massacre, de ódio, de indiferença, de caçada, de extermínio e extremo terror. O que fica quando você está em contato com sentimentos de frustração, de angústia, de mágoa, de dor, de perda, de luto, num contexto que você pode ser o próximo a tombar por um movimento brusco, por uma acusação devida ou indevida, por passar na rua errada, estar no bairro errado?
 
As cachaças, os psicotrópicos, os porres, os sambas foram os refúgios, os escapes emocionais a uma estrutura desumanizante. O choro é ali aos borbotões, no transbordo pra num enlouquecer
 
Somos soldados em uma guerra da qual nunca quisemos fazer parte, sendo convocados a contragosto e participando como bucha. Àqueles que tem consciência do que é o racismo ou simplesmente tem noção do que é o ódio anti-preto em sua essência, sabem que tem que ser guerrilheiros em meios às vivências cotidianas. Se olharmos bem, o que foram os boêmios, Parte considerável dos malandros? Mestres na arte da sobrevivência.

Olhe o choro nos sambas, nas músicas escritas e cantadas com emoção.. Olha o choro na cachaça, no silêncio, no riso triste e no alegre,no sorriso que só arreganha os dentes mas num é espelho d’alma. Nos tragos e vícios..

É preciso olhar para o que este Homem Preto e entender quais foram as suas estratégias de sobrevivência física e emocional para não sucumbir a uma estrutura que o vê como caça a ser abatida deste o útero. E isto não é dizer que ele está conseguindo se manter firmão, mas ver qual que é do jogo.
 
As guerras costumam ter um fim. Assim, os traumas deveriam ser tratados. Mas e quando a guerra psicológica é ininterrupta? Transpassa a vida? E quando o terror te forja o comportamento, os limites?
Que Pai Preto hoje minimamente consciente e leal à sua família não pensa em passar pros filhos um manual que os permita viver o máximo de tempo possível num mundo que visa a sua eliminação constante? O que não fazer, como não reagir, como não provocar.. O amor que parece tirado dos livros do Sun Tzu..
 
Alguém já pensou nos silêncios masculinos como refúgio último da dignidade pra lidar com uma vida da qual quase nada se tem controle e que tá sempre em risco?
 
Aí continua a pergunta: chorar é a resposta? Chorar é descanso, é relaxo muscular. Quando que dá? Essa sensibilidade nesse caos tem de ser posta em outro lugar..

Eu penso nestas fitas e vejo que chorar nem rola. O que rola é só a lágrima caindo do olho pra umedecer. A sensibilidade tá em outro campo, tá num refúgio, num lugar sem nome. Pra se abrir em segurança, sozinho, sem ter chance pra arregaço e retaliação.

Mas estas são só brisas minhas, mesmo.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 30 de novembro de 2018..

Auto-ódio como motor das relações afetivas

Eu já devo ter escrito sobre isto em algum momento, mas acho que sempre cabe pontuar estas paradas. Nós somos o único povo que, ao se decepcionar nas relações intrarraciais, procuramos a solução em outros povos e de maneira mais intensa, com os toubobs.

Quando dizemos “não dá pra se relacionar mais com pret@s” sendo você uma pessoa preta, não é apenas os erros cometidos nas relações afetivas. É a assunção de algo errado de saída, do caráter, do comportamento, do histórico. É assumir a perspectiva racista que pessoas pretas ou são extremamente problemáticas ou não são de confiança, onde não se deve investir tempo e afeto na tentativa de construir algo conjunto. Essa desconfiança não fica restrita ao campo afetivo-sexual, porque é uma desconfiança irrestrita, logo, a todo o Povo Preto. Quem utilizou e construiu essa narrativa sobre nós fez isto durante séculos?

Temos a muito custo tentado construir uma narrativa que nos coloque no centro, que tenta por todas as vias nos fortalecer enquanto grupo, e na tentativa de surfar nessa “onda”, vários dos nossos mascaram seu racismo introjetado dando outros argumentos pra mostrar a sua aversão ao seu próprio povo, ou seja, a si mesmo. Ao dizer que estão “cansados de se envolver”. Me digam: que outro povo na face da terra utiliza tal argumento? O que isto diz sobre nós?

Não é uma regra, mas as escolhas com quem você decide construir e conviver no sentido íntimo dizem muito sobre as suas lealdades e sua solidariedade primeira.

Ainda temos projetada uma imagem distorcida de nós mesmos. Enquanto nos sentirmos “cansados” de outros pretos e pretas, a busca pela salvação sempre estará na brancura e em outras gradações raciais, o que nos coloca sempre numa condição de desequilíbrio.

Não existe avanço real sem comprometimento racial. O resto é mito grego.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 26 de novembro de 2018.

Reflexões sobre o trabalho doméstico e seus impactos nos relacionamentos negros

O emprego doméstico ainda é o maior empregador de mulheres negras no país. Pensando historicamente, é a continuidade do modelo escravocrata no país, o que significa em muitos casos o mínimo de direitos e uma carga de trabalho extensa.

Já vi algumas reflexões sobre a dificuldade destas mulheres na criação dos próprios filhos, em muitos casos no passado tendo direito a vê-los uma vez por semana ou não tendo tempo para vê-los direito por causa da jornada de trabalho.

Mas e no campo do afeto? E no campo das relações afetivo-sexuais? To pensando aqui como é difícil encontrar história de mulheres negras que foram domésticas nesse regime escravo e mantiveram relacionamentos duradouros com seus parceiros. Com o tempo todo dedicado a uma outra familia, como estruturar a própria? Outro dado que complexifica são os assédios sexuais que muitas sofreram e sofrem ainda hoje. Muitas dessas investidas resultaram em estupros, em filhos.

Estas situações vividas pelas empregadas colocava complicações em estabelecer parceiros longevos. A estrutura racial ao utilizar esta mulher como posse, a destituiu de muitas possibilidades.

Na Afrika do Sul (Azania) nos tempos de apartheid, os homens iam fazer o trabalho doméstico com medo da violência às suas esposas.

Infelizmente não tivemos essa possibilidade como homens por aqui, e por não podermos proteger nossas consortes, companheiras, acabou por arranhar nossa percepção enquanto homem.

Não pôde proteger do dono do engenho e seus filhos, o mesmo acontecendo com o equivalente no pós-abolição. Pensar o universo do trabalho doméstico sem homens, sem relações estáveis também é um reflexo de como os desdobramentos do racismo rebatem na desestruturação das famílias negras.

Por Tago E. Dahoma (Thiago Soares), em 6 de novembro de 2018.

A (falsa) morte da Utopia

Há alguns meses, eu tenho pensado na morte da minha utopia, na morte dos sonhos, do fantástico. Talvez as criações das realidades aqui no mundo virtual onde se maximiza tudo tenha culpa neste sentimento. Doses diárias de notícias deprimentes, de um apocalipse atrás do outro, alargando as rachaduras do bloco que permite a sanidade nestes momentos dificeis.
Percebi o que me parecia a morte da minha utopia diante de uma conversa, no qual eu via aquele fio de esperança, quase ingênua, com alguém que acreditava na transformação social via voto, via partidos, e tomei aquela esperança quase como um insulto. Depois percebi que aquela esperança, aquela expectativa era também um manto protetor das neuroses, o ânimo pra levantar da cama, o principio que permite tentar viver em vez de apenas respirar e e se locomover.
Senti inveja. Senti-me traído por mim mesmo. Como permiti que minha Utopia desfalecesse diante das condições adversas? Quis aquela ingenuidade, aquela esperança genuína, enfim, eu queria aquela proteção, como casa forte em meio à tempestade.
No entanto, percebi que o que tenho como princípio jamais foi ingênuo. Que a Utopia de pessoas pretas pouco fogem de seus corpos, das possibilidades que suas mentes e braços pudessem criar e prover. Percebi que a minha Utopia, igual a de milhões de pessoas pretas no Brasil, é estar vivo. Vivão e Vivendo, custe o que custar. E que nos nossos arranjos diários, as doses de resiliência e táticas de sobrevivência são indissociáveis do que projetamos pro futuro.
O mais interessante desse processo foi ver que enquanto eu achei que ela havia morrido em mim, na verdade eu sou esta Utopia, porque estou vivo e pretendo estar, não importa a intempérie. Eu sou os sonhos de minha mãe, de meu pai e de meus avós, e de todos os ancestrais que me permitiram estar aqui hoje.
Eu sou a viva Esperança deles e ds que ainda estão por vir e estar é a capa de proteção que tenho que ter pra enfrentar tudo e todos que se opuserem ao meu caminho.

Por Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 24 de outubro de 2018.

Eleições brasileiras e big data: as armadilhas nas redes sociais

Há um tempo, pelo menos durante estes dois últimos anos, tenho pensado no impacto das redes sociais nas nossas interações e nas perspectivas de realidade. Algo que me chamou a atenção do perigo do uso dos nossos dados foi a eleição presidencial americana, com a vitória do Donald Trump em 2016, acabando com todos os prognósticos e apostas políticas dos institutos de pesquisa e do eleitorado americano. Na análise dos métodos que permitiram a vitória dele por lá, percebeu-se que os dados pessoais dos indíviduos nas redes sociais foram cruciais para estabelecerem perfis de convencimento (no caso dele) e de desmotivação (para Hillary Clinton, sua adversária).

Em 2017, os integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre, com uma origem bem nebulosa após as manifestações de 2013), em conversas no Whatsapp, se mostraram interessados no uso dos instrumentos da Cambridge Analytica para influenciar as eleições em favor do João Dória, assim como influenciaram as eleições americanas e o Brexit na Inglaterra. Segue abaixo o relato:

“No dia 16 de agosto, quando comentavam sobre a possível trucagem engendrada pela Rússia nas eleições dos Estados Unidos, um participante teclou sobre a consultoria política Cambridge Analytica, que teria usado bases de dados disponíveis na internet para influenciar a eleição de Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. Mesmo diante da postura cética de alguns membros, o participante enfatizou: ‘Isso é muito sério, gente. E podem ter certeza que vai ser usado aqui em 2018. Só espero que o Doria ja tenha fechado contrato de exclusividade com a Cambridge analytica [grifo meu].Rss.'” (Reportagem da Revista Piauí, em 03 de outubro de 2017, sob o título “O Grupo da Mão Invisível”).

O que temos em uso são os nossos dados pessoais fornecendo um campo de informações tão específicas, que está sendo possível elaborar nossos perfis de maneira muito fidedigna. O campo da manipulação nas redes sociais é uma mina de ouro, no qual a extrema direita está nadando de braçada. Influenciar a nível de consumo é apenas um dos braços mais “éticos”, mas é nítido que o ideal é utilizar as redes sociais, que deixaram há muito de serem interfaces da realidade para serem praticamente a realidade-em-si, para manipular as vontades, desejos e ações dos indíviduos de maneira bem perigosa e muitas das vezes, contrárias ao seu real interesse.

Costuma-se pensar a nível de senso comum que as redes sociais são como as relações pessoais, como se fossem algo direto, mas a grande questão é o intermediário que quase nunca é citado, e que busca a cada momento obter mais informações sobre as nossas atividades e tendências, afim de não apenas antever os nossos passos e atividades, mas também usá-las, sejam para atividades comerciais ou para uso político, como temos visto.

Nisto, entra o fenômeno bolsonaro. As táticas utilizadas pela militância do candidato são extremamente semelhantes ao do presidente americano, com perfis falsos com o intuito de influenciar um conjunto de pessoas a partir de suas vontades e inclinações. Como eu havia dito em um outro post, a verdade passa a ser apenas mais uma versão num mundo de fake news, e as possibilidades de multiplas versões sobre os fatos – assim como sua negação – e a veiculação sistemática destas versões faz com que não se questionem os pressuspostos, tampouco a conduta do bolsonaro. Não importam as múltiplas provas contrárias à sua conduta, já que a multiplicação das versões que lhes são benéficas sobressaem sobre as outras. As correntes no Whatsapp são exemplos nítidos deste fenômeno.

Algo que me chamou a atenção durante a campanha e que pude entender com os escândalos da Cambridge Analytica foi a ausência de material de campanha deste candidato nas minhas redes sociais. Comecei a me questionar o por quê de tantas pessoas famosas, e celebridades declararem apoio imediato no candidato. O que recebi foram materiais de combate à sua pessoa e à sua candidatura. E algo nítido é que estas duas redes de informação não se intercambiam. As bolhas informativas são cada vez mais sólidas e rígidas, e dado a importância das redes sociais como veiculadoras de informação, há um hiato no lugar comum, já que este foi esfarelado em perspectivas da realidade a depender do perfil do indivíduo. A polarização política foi apenas intensificada por este método, já que se perde espaços de contato, tanto na diversidade das pessoas quanto nas fontes e conteúdos das notícias.

Estamos brigando com parentes, amigos, entre os nossos familiares, por conta sobretudo de um ardil que tem influenciado o comportamento de milhões de pessoas ao redor do globo. Há pessoas que nitidamente sabem o que estão fazendo por se sentirem em uma certa “revanche” contra os avanços sociais e políticos da última década, e que viram na ascensão de negros, mulheres e lgbts um ataque ao seu direito manifesto de ser hegemônico. No entanto, o espectro de apoiadores de bolsonaro inclui exatamente quem ele não tem o menor apreço, e isto deve ser questionado. Vemos perfis que seriam alvos de suas políticas restritivas e bélicas defendendo-o de maneira acrítica, quase que numa perspectiva moral. No meu entender, isto tem mais a ver com a rede de informações que esta pessoa está vinculada do que exatamente uma falha de caráter. A propaganda foi elevada a um nível de micro-detalhe, o que a torna ainda mais perigosa. Cabe mais do que nunca o diálogo com aquele que amamos e conhecemos profundamente os príncípios. A virtualidade do mundo permite um excesso de notícias que tem nos afogado em desinformação. Estamos cada vez mais analfabetos virtuais e isto tem fortalecido ideais mais cruéis.

A big data definiu esta eleição, seja qual for o resultado do dia 28 de outubro. Temos visto com frequência o vazamento de informações sigilosas dos usuários do Facebook, além de falhas na segurança do Twitter, entre outras. O acesso ao nosso comportamento é uma leitura poderosa do que pensamos, de nossos anseios e não parece haver freios eficazes a estes usos. A união européia, capitaneada pela alemanha já cria uma legislação mais rigorosa sobre esta finalidade dos dados e do acesso dos usuários sobre eles, e nos estados unidos o escandâlo da eleição do trump ensejam novos olhares sobre as redes sociais. E no brasil? Apesar dos nossos dados não serem tão disponíveis como nos estados unidos, a facilidade com que se interfere e manipula as ações dos usuários coloca um horizonte ainda mais sombrio para o futuro. Quem souber pagar à agência certa, leva o país inteiro. Pouco importando se falta credenciais para o cargo.

Por Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), em 17 de outubro de 2018.

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link da reportagem: https://piaui.folha.uol.com.br/o-grupo-da-mao-invisivel/