“Negros” enquanto categoria: fragmentações no horizonte

“Você é negro? Você é visto como negro?” Uma pergunta que alguns poucos anos poderia ser seguida de respostas simples, dadas com convicção, hoje necessita de mais ponderações. O padrão tão duramente batalhado pelo movimento negro desde os anos 1970, com impactos profundos nos recenseamentos, instituições e na auto-percepção das pessoas negras (mestiças e pretas) parece ter chegado ao seu fim. Pelo menos no campo das mídias sociais, mas com efeitos massivos nas relações cotidianas.

A conformação da população negra em uma categoria racial já dada, permitiu avanços na leitura e observação dos indicadores sociais, políticas públicas foram tomadas – mas de pouca mitigação do racismo crônico congênito -, mudou a percepção que as pessoas negras tinham de si mesmas, passando a afirmar uma negritude antes negada. Maior espaço nos comerciais, a noção do consumo negro se fazendo presente, a ideia de clientela negra ganhou muita força a partir dos anos 2000.

No entanto, a diversidade fenotípica (dos traços físicos) nas pessoas negras sempre impediu que a ideia de “ser negro” fosse aceita de modo inequívoco, dada as gradações e também o intenso trabalho do racismo em degradar tudo o que significasse ser negro: qualquer elemento de brancura, era um sinal para o escape. Em suma, houve diminuição intensa da rejeição das pessoas negras ao se afirmarem, mas não foi algo totalmente aceito por todos.

A diversidade de fenótipos foi usada de maneira escancarada como uma política de apaziguamento racial e de negação do racismo pelas elites brasileiras, assunto que daria um outro texto. O ponto central a ser discutido neste texto é uma hipótese de como a diversidade de fenótipos enfraqueceu um discurso unitário centrado em raça. Divido em três pontos esta argumentação:

1) As ações afirmativas: As ações afirmativas foram um marco no debate de políticas de reparação com foco em raça e classe. Ao serem aplicadas nas universidades de prestígio, seja com reserva de vagas ou bonificações, houve um intenso debate na sociedade brasileira sobre a constitucionalidade de sua aplicação, sendo acusada de dividir o país em “negros e brancos”. Para além do intenso debate, chamo a atenção para as “conversões” de pessoas que nunca antes se pensaram negras e passaram a se pensar na medida em que poderiam ter uma vaga assegurada na universidade. A busca por um ancestral negro na família passou a ser um objetivo para confirmarem sua negritude, mesmo que não aparentes em seus traços. Obviamente, houve muita enganação e tentativas, mas passou a ter também uma confusão nas auto-declarações: Quem é negro a ponto de poder ser cotista? As diferenças de uma banca de avaliação para outra sugerem que os critérios, para além do social, poderiam ser mais subjetivos, dado que o “ser negro” poderia variar de região para região. Essa linha de definição da negritude passou a ser constantemente desafiada, com a inclusão de pessoas com ascendência negra mas que em seus fenótipos poderiam ser consideradas brancas. Os processos de “enegrecimento” (seja por táticas de escurecer a pele e enrolar os cabelos, ou estar associado a grupos negros e assuntos de interesses do povo negro) foram muito denunciados.  A linha que define negros e brancos passou a ser mais “branca” pelas táticas utilizadas pelas pessoas não-negras para conseguirem sua vaga na universidade.

2) blackfishing: Estes são fenômenos mais recentes, mas que de certa forma estão associados aos elementos citados no ponto anterior. As mídias sociais, como um espaço de publicidade e propaganda de vários tipos de produtos e ideias que poderiam ser especializadas para determinados segmentos sociais. Para a população negra, sobretudo mulheres negras, há uma gama de produtos que fez com que a associação de suas imagens a estes lhe poderia ser uma ação rentável, assim como as pessoas brancas já faziam e recebiam para fazê-lo. A grande questão é o processo em que pessoas brancas passam a se utilizar de filtros de mídias sociais, como o Instagram, além de se “produzirem” (com roupas, cabelos e seus cortes, tranças e outros adereços) para se passarem por pessoas negras e assim, lhes tomar a posição de rentabilizar neste cenário virtual. As pesquisas em históricos e as consequentes denúncias de apropriação cultural são uma chave de inibição, mas o ponto que mais uma vez chama a atenção é: há uma facilidade, sobretudo com os apetrechos virtuais, de pessoas brancas conseguirem se passar por negras, mas o inverso, o bloqueio permanece. Essa transição, mesmo quando apontada, produz efeitos de alargamento do entendimento de um fenótipo negro, pois foi aceita até a denúncia.

3) “Preto” como categoria política e não apenas fenotípica: Os diversos movimentos negros organizados levaram o debate da questão racial para o cerne político e social da sociedade brasileira, e ficou assim por mais de uma década. As diversas pautas, as autodefinições, as teorias de luta e engajamento criadas aqui no brasil e também trazidas de fora, forjaram um novo entendimento sobre o conceito de “preto”: preto quando pensado racialmente não configurava apenas sobre uma pessoa de traços negróides e pele melaninada, mas sim um arcabouço de práticas, falas, vivências e experiências associadas culturalmente ao povo preto.  Descolado do fenótipo, sendo apenas prática, uma pessoa branca se sente representada na cultura negra para se afirmar “preta”, já que ela tem a experiência da cultura e/ou de vivência. Portanto experiências notadamente negras (candomblé, maracatus, capuêra, sambas, entre outras) poderiam ser um tipo de certidão para pessoas brancas se afirmarem negras, pois boa parte dessas formas de ser e estar no mundo afetam a corporeidade, o olhar, e muitas tem códigos de conduta e vestimentas não-explícitos, que só reforçam essa sensação.

Os efeitos dessa combinação tem sido catastróficos. A auto-definição de brancos como negros tem permitido uma confusão na definição que negros tem de si mesmos enquanto negros. Esta dúvida – e peso – recai sobre as pessoas que são frutos de relações interraciais, trazendo o fenótipo tanto de negros quanto de brancos. Os brancos se utilizam das características da mistura racial e sua diversidade para se assumirem negros, gerando questionamentos intensos sobre o pertencimento racial das pessoas que são negras, mas que podem ser vistas como brancas a partir da supressão de algum elemento característico.

A dúvida e essa margem de definições muito largas tem levado a um novo processo de reafirmação da negritude, com o foco na pele e nos traços: a pessoa inegavelmente negra é a preta, com sua pele retinta e seus traços indubitavelmente afrikanos. A supervalorização destes traços tem um tom de subversão da ordem racial, no qual as pessoas mais escuras são as mais desvalorizadas e tem sua auto-estima corroída, porém, é uma resposta aos critérios subjetivos e controversos da definição da negritude no corpo, nos traços, principalmente das pessoas com ascendência branca e negra. Se não sabemos quem são pessoas negras, nos voltemos a quem temos certeza. A quem não temos certeza da negritude, “está do lado de lá”, sendo vistas como brancas ou sendo alvos de um escrutínio sobre seu pertencimento racial por toda a sua trajetória. Algo perverso, ao meu ver, é que os limites raciais mudam conforme a vontade de quem definiu estes critérios raciais: brancos podem se autodefinir como quiserem, mas negros e outras raças jamais poderão se definir enquanto brancos. A branquitude é um elemento de poder, que até permite que um dos seus abdique deste lugar/espaço, mas que impede que esta vacância seja preenchida por um não-branco. Isto é tão estapafúrdio que neste movimento, as pessoas brancas podem literalmente reinventar o que “negro” significa e quais são seus elementos característicos,  incluindo a si mesmos, já que eles mesmo que inventaram o que negro significa. O nosso movimento tem sido de reação a esta criação, porque sem os referenciais em Áfrika, ela permitiu que nos recriássemos e nos percebêssemos como pessoas, com uma característica comum. A defesa é a este legado, `auto-percepção fora das condicionantes degradantes criadas pela lógica racista.

Este fenômeno é uma descontinuidade das lutas travadas pelos movimentos negros organizados, que pensaram a categoria “negro” como uma junção de pretos e “pardos”, sendo uma resposta aos diversos tipos de denominações para as cores não-brancas nos censos. Uma miríade com mais de 100 tipos de cores. É nítido que essa aglutinação foi um avanço, mas que está caindo por terra pois a ideia da categoria racial como formulada pelos nossos mais velhos, não se encaixa numa configuração no qual o entendimento sobre o que faz uma pessoa ser negra está cada vez mais perdendo sua referência preta (e ao que os pretos passam socialmente) para elementos característicos que podem ser enxergados em pessoas brancas. Os julgamentos pululam, assim como a percepção subjetiva sobre a cor, por critérios pessoais. Essa dissociação dos pertencimentos raciais provocada por esta distorção pode levar a um tipo de separação política que não será benéfica às pessoas negras no país. Uma nova discussão precisa ser travada, pois o vácuo em uma identificação mais segura e esta fluidez racial tem condicionantes implosivas para o nosso próprio entendimento do que nós somos no brasil.

Há um ditado que diz que:”nasceu depois das 6, é meia noite”, para identificar que não sendo branco, será negro; Este nosso momento parece dizer que depois das 6, ainda tem muitas horas para se definir quem será negro. O que fazer com estes rejeitados raciais é o ponto que definirá se realmente somos maioria no brasil ou não, com as eventuais consequências políticas e sociais dessa decisão.

Por: Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares) em 17 de setembro de 2019.

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Publicado por

papiroindomito

"Uma espada que ao mesmo tempo tem o gume cortante e se enferruja". O dizer de si sempre é o rescaldo das nossas impressões nas outras pessoas. Ora tranquilo, ora gélido, ora paisagem nas suas diversas estações do ano..

3 comentários em ““Negros” enquanto categoria: fragmentações no horizonte”

  1. Tago, achei seu texto muito cirúrgico, fundamental para pensarmos as relações raciais no Brasil de hoje. Vivemos um momento de muitas e profundas complexidades no que compete às identidades socioculturais, às corporeidades e subjetividades dos indivíduos. Tenho batido na tecla de que, cada vez mais, talvez a partir do início dos anos 2000 para cá, a industria cultural no Brasil, de mãos dadas com a dinâmica da cultura digital – especificamente através dos condicionantes das redes sociais digitais (fenômeno recente na história da humanidade), têm provocado uma agressiva precarização das identidades sociais, das corporeidades e subjetividades humanas, à serviço da construção do hábito de consumo compulsivo e altamente positivista (reativo aos estímulos “hiperpalatáveis” da cultura de massas).

    Vamos trocar figurinha meu bom! Parabéns pelo texto, achei sensacional!

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  2. Fico cá pensando se há um exemplo na diáspora que pode nos servir. Acabamos por definir o que é “negro” a partir de uma reatividade a construção de negro pelo sistema racista. Como exemplo poderíamos pensar os EUA, cuja definição se da ainda a partir da lei racista de “uma gota de sangue”. Enfim, a pergunta é: existe alguma experiência na diáspora de definição afirmativa e não reativa? Fenótipo é a chave do racismo como explicou Carlos Moore e acho que devemos focar nele e proteger a melanina. As consequências, com certeza, seria perder o status de país mais preto fora da África e o consequente canal de barganha para políticas públicas tendo esse argumento. Enfim, ta confuso…. Eu sei…. Tô pensando. Obrigado pelo texto

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    1. Boa pergunta.. fico pensando Suriname e alguns países do Caribe poderiam nos dar um insight. Eu sempre acho que territorialização e códigos culturais sem interferência constante podem ser bons exemplos de como alguns grupos se reinventaram nas diásporas. Tem um conjunto de ilhas nas Carolinas, lá nos states que tem uma comunidade preta que fala outra língua.. é quase um quilombo. Temos respostas nos lugares que saíram de alguma forma do jugo político e físico dos brancos. Ver o que cabe a nós e tentar colocar em prática.

      Valeu por teu comentário. Abraço, nego.

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