O choro é a solução? Das sensibilidades em meio ao terror..

Se diz aos Homens Pretos: chorem mais, se abram..
 
Aì eu penso como é que dá pra fazer isto num contexto de guerra, ou melhor de massacre, de ódio, de indiferença, de caçada, de extermínio e extremo terror. O que fica quando você está em contato com sentimentos de frustração, de angústia, de mágoa, de dor, de perda, de luto, num contexto que você pode ser o próximo a tombar por um movimento brusco, por uma acusação devida ou indevida, por passar na rua errada, estar no bairro errado?
 
As cachaças, os psicotrópicos, os porres, os sambas foram os refúgios, os escapes emocionais a uma estrutura desumanizante. O choro é ali aos borbotões, no transbordo pra num enlouquecer
 
Somos soldados em uma guerra da qual nunca quisemos fazer parte, sendo convocados a contragosto e participando como bucha. Àqueles que tem consciência do que é o racismo ou simplesmente tem noção do que é o ódio anti-preto em sua essência, sabem que tem que ser guerrilheiros em meios às vivências cotidianas. Se olharmos bem, o que foram os boêmios, Parte considerável dos malandros? Mestres na arte da sobrevivência.

Olhe o choro nos sambas, nas músicas escritas e cantadas com emoção.. Olha o choro na cachaça, no silêncio, no riso triste e no alegre,no sorriso que só arreganha os dentes mas num é espelho d’alma. Nos tragos e vícios..

É preciso olhar para o que este Homem Preto e entender quais foram as suas estratégias de sobrevivência física e emocional para não sucumbir a uma estrutura que o vê como caça a ser abatida deste o útero. E isto não é dizer que ele está conseguindo se manter firmão, mas ver qual que é do jogo.
 
As guerras costumam ter um fim. Assim, os traumas deveriam ser tratados. Mas e quando a guerra psicológica é ininterrupta? Transpassa a vida? E quando o terror te forja o comportamento, os limites?
Que Pai Preto hoje minimamente consciente e leal à sua família não pensa em passar pros filhos um manual que os permita viver o máximo de tempo possível num mundo que visa a sua eliminação constante? O que não fazer, como não reagir, como não provocar.. O amor que parece tirado dos livros do Sun Tzu..
 
Alguém já pensou nos silêncios masculinos como refúgio último da dignidade pra lidar com uma vida da qual quase nada se tem controle e que tá sempre em risco?
 
Aí continua a pergunta: chorar é a resposta? Chorar é descanso, é relaxo muscular. Quando que dá? Essa sensibilidade nesse caos tem de ser posta em outro lugar..

Eu penso nestas fitas e vejo que chorar nem rola. O que rola é só a lágrima caindo do olho pra umedecer. A sensibilidade tá em outro campo, tá num refúgio, num lugar sem nome. Pra se abrir em segurança, sozinho, sem ter chance pra arregaço e retaliação.

Mas estas são só brisas minhas, mesmo.

Por: Tago E. Dahoma (Thiago Soares), 30 de novembro de 2018..

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Publicado por

papiroindomito

"Uma espada que ao mesmo tempo tem o gume cortante e se enferruja". O dizer de si sempre é o rescaldo das nossas impressões nas outras pessoas. Ora tranquilo, ora gélido, ora paisagem nas suas diversas estações do ano..

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