A (falsa) morte da Utopia

Há alguns meses, eu tenho pensado na morte da minha utopia, na morte dos sonhos, do fantástico. Talvez as criações das realidades aqui no mundo virtual onde se maximiza tudo tenha culpa neste sentimento. Doses diárias de notícias deprimentes, de um apocalipse atrás do outro, alargando as rachaduras do bloco que permite a sanidade nestes momentos dificeis.
Percebi o que me parecia a morte da minha utopia diante de uma conversa, no qual eu via aquele fio de esperança, quase ingênua, com alguém que acreditava na transformação social via voto, via partidos, e tomei aquela esperança quase como um insulto. Depois percebi que aquela esperança, aquela expectativa era também um manto protetor das neuroses, o ânimo pra levantar da cama, o principio que permite tentar viver em vez de apenas respirar e e se locomover.
Senti inveja. Senti-me traído por mim mesmo. Como permiti que minha Utopia desfalecesse diante das condições adversas? Quis aquela ingenuidade, aquela esperança genuína, enfim, eu queria aquela proteção, como casa forte em meio à tempestade.
No entanto, percebi que o que tenho como princípio jamais foi ingênuo. Que a Utopia de pessoas pretas pouco fogem de seus corpos, das possibilidades que suas mentes e braços pudessem criar e prover. Percebi que a minha Utopia, igual a de milhões de pessoas pretas no Brasil, é estar vivo. Vivão e Vivendo, custe o que custar. E que nos nossos arranjos diários, as doses de resiliência e táticas de sobrevivência são indissociáveis do que projetamos pro futuro.
O mais interessante desse processo foi ver que enquanto eu achei que ela havia morrido em mim, na verdade eu sou esta Utopia, porque estou vivo e pretendo estar, não importa a intempérie. Eu sou os sonhos de minha mãe, de meu pai e de meus avós, e de todos os ancestrais que me permitiram estar aqui hoje.
Eu sou a viva Esperança deles e ds que ainda estão por vir e estar é a capa de proteção que tenho que ter pra enfrentar tudo e todos que se opuserem ao meu caminho.

Por Tago Elewa Dahoma (Thiago Soares), 24 de outubro de 2018.
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Publicado por

papiroindomito

"Uma espada que ao mesmo tempo tem o gume cortante e se enferruja". O dizer de si sempre é o rescaldo das nossas impressões nas outras pessoas. Ora tranquilo, ora gélido, ora paisagem nas suas diversas estações do ano..

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