Utopia do simples: entre o pragmatismo e a sobrevivência.

Texto escrito em 2016 e atualizado em 2018..

O pragmatismo é a moeda corrente que as pessoas pretas tem utilizado pra fazer suas trocas, no que podemos dizer, miúdas quando em contato com pessoas não-negras. Ando pensando não apenas a questão estrutural, mas principalmente em como o pragmatismo, que podemos muito bem chamar de “princípio da sobrevivência”, baliza muito das nossas ações e reações, sobretudo quando a possibilidade de perder alguma conquista se depara no horizonte.

As posses são poucas, e as conquistas, quando perdidas, nos calam fundo na alma. As nossas utopias ainda expressam o básico: emprego decente, alimentação regular, envelhecer. E no que estamos dispostos a nos interditar e se sacrificar em milhares de situações pra que essa utopia do simples se realize. A não se queixar, a não explodir, a sorrir com o ódio nos olhos, a suavizar quando o amargo sufoca e se prende na garganta. A nossa sobrevivência nos adoece mentalmente.

Acho que esta sensação está em seu ponto máximo atualmente, com empregos na berlinda e desemprego entre os nossos soçobrando, com a sensação de “vou rodar” a cada dia que se levanta. Para aqueles que nada têm, vestir a camisa remendada àos pretos neste território, vem com um kit forçação: com o sorriso bonito (que tenta desmontar a visão de besta-fera), a roupa “apresentável”, para que a utopia do simples continue. Aquele ato racista que, se fosse levar às últimas instâncias, se teria todas as portas fechadas, ou uma chefia liberal, que trata como brincadeira a nossa humanização em jogo.

Quais os sacrifícios fazemos para não nos sentirmos descartáveis nesse jogo injusto? Qual o custo disto para a nossa saúde mental? Aquela frase “ser duas vezes melhor” ou “matar dois leões por dia” não deixam de ser figurações de nosso esforço pra não apenas nos sentirmos válidos, mas para que sejamos validados, positivados em qualquer ação que estejamos fazendo.

Se não existe o passado tampouco o futuro, o que fazemos senão sobreviver? Às vezes na percepção das pessoas guiadas pelo espectro da direita ou esquerda, os princípios políticos guiando a sua postura no mundo, de modo destemido – e porque não? – livre, enquanto que uma pessoa negra asseverar a existência do racismo no ambiente de trabalho lhe tolhe das compras do mês, lhe tolhe o ir e vir, lhe tolhe a possibilidade de ascensão.

A sobrevivência, essa utopia do simples e o que se faz pela sua manutenção, não deixa de ser também medo, e porque não, desesperança. O mundo melhor pra muitos de nós cabe em nossas crianças sadias, em teto que não desmorone, em casa de alvenaria. Saca que se o regime é democrático parece abstrato?

O que é considerado perda nunca é pouco pra quem nada tem.

Por Tago Elewa Dahoma, 24 de agosto de 2018.

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Publicado por

papiroindomito

"Uma espada que ao mesmo tempo tem o gume cortante e se enferruja". O dizer de si sempre é o rescaldo das nossas impressões nas outras pessoas. Ora tranquilo, ora gélido, ora paisagem nas suas diversas estações do ano..

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